Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

27/9/06

Caterva

Davi Castiel Menda

Quosque tandem abutere, caterva, patientia nostra? *
Quosque tandem abutere, CNT-Sensus, Datafolha, Globo-Ibope, patientia nostra? *

Nos bons tempos (para quem já desfruta de filas liberadas nos caixas de instituições financeiras e supermercados, bons tempos nos remete há pelo menos 50 anos), aprendia-se latim nos bancos escolares. A insistência generalizada, com a alegação de que era uma língua morta, extinguiu o latim do curriculum - aliás, palavra essencialmente latina - escolar, liquidando-o literalmente, pela segunda vez. Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? - a frase original - era o carro-chefe de qualquer professor de latim que se prezasse; intelectualmente construía a primeira aula, era a nossa apresentação àquela língua que para a maioria não tinha a menor serventia, a não ser aos futuros bacharéis, o que não era o meu caso. A frase é atribuída a Cícero, que a repetia insistentemente no senado romano, questionando o limite da paciência do povo romano das atitudes impróprias e incoerentes do general Lucius Sergius Catilina. As duas primeiras letras do nome do general inconscientemente me impelem a cismar numa coincidência atroz, mas, deixa pra lá… Substitua-se Catilina por nomes e/ou situações atuais, a exemplo do exercício de imaginação que desenvolvi no início deste artigo, e a frase parece ter sido pronunciada ontem, e não há dois mil anos.

Pois a caterva "aloprada" aprontou mais uma! Um milhão e setecentos mil reais seriam pagos por um dossiê de eficiência e origem duvidosas. Um milhão e setecentos mil reais, entre valores genuinamente tupiniquins, acrescidos das tão disputadas notinhas esverdinhadas. Você, votante do candidato-presidente, que recebe um salário mínimo por mês, seja trabalhando, seja do bolsa-família, ou até como aposentado, tem idéia de quanto representa esta quantia? É exatamente o que você ganharia no período de 405 anos, é claro, se o Criador permitisse que você vivesse por todo este tempo. Se você ainda não racionalizou e deglutiu perfeitamente o alcance da frase anterior, eu tenho a paciência que Cícero tanto implorava ao povo romano, e explico com mais detalhes: para entrar de posse desta dinheirama, você teria que trabalhar durante pouco mais de quatro séculos e, se durante todo esse tempo não se alimentasse, não precisasse adquirir roupas, não ficasse doente, não fosse a uma partida de futebol, não tomasse uma cervejinha, não festejasse o aniversário de um filho, você teria juntado o suficiente para comprar o dossiê Cuiabá. É tanto dinheiro, que o povo foi privado de vê-lo em fotos e, porque não, admirá-lo, pois é uma quantia que a maioria dos mortais jamais poderá apalpar, que dirá possuir (exceção ao ganhador da mega sena acumulada de hoje). Pelo menos, que nos dessem esse prazer…

E mesmo com toda esta quizilenta situação, gerada pelo próprio Partido dos Trabalhadores, os três principais institutos de pesquisa e consultoria continuam apregoando a vitória do candidato-presidente ainda no primeiro turno. O censo da mineira Sensus - Pesquisa e Consultoria, divulgado hoje (27.09.2006) nos principais jornais do país - com o perdão do trocadilho - é um contra-senso, um disparate ofensivo à inteligência de brasileiros que - ainda - pensam e raciocinam.

Apesar de tê-lo feito em artigo anterior, faço questão de novamente citar José Stelle, pensador brasileiro radicado no exterior: "Não vou por ibopes, e sim pela lei natural, pela sensibilidade, e pela razão. E leio as entrelinhas das conversas com parentes e outros no Brasil, por telefone ou quando visito. O tom de voz, as respostas descuidadas, as projeções da Síndrome de Estocolmo, o que Ayn Rand denominou a sanção da vítima - tudo isso mostra o efeito da desinformação petista. Isso não ocorre só com eles, mas no país todo".

Basta que, de cada 10 eleitores que pretendessem votar no candidato da situação, um, apenas um em cada dez, troque de lado, insatisfeito com os escândalos presenciados e vividos com uma impressionante regularidade e definitivamente incorporados ao nosso cotidiano, e a vitória no primeiro turno tão apregoada com altivez, arrogância, presunção e sobrançaria, caia fragorosamente por terra.

Se eu estiver enganado, dou mão a palmatória, e mesmo professando outra religião, vou pessoalmente encabeçar uma petição ao Papa Bento XVI (só faltava ser Bento XIII) exigindo do Vaticano que o "homem" seja alçado à condição de santo, pois depois de tudo o que aconteceu no país, eleger-se no primeiro turno, só um milagreiro! A propósito, tendo em vista que inesperadamente o artigo transmigrou de política para religião, gostaria de encerrá-lo com uma citação do Talmud: "Tente evitar a pobreza, ensinando a cada homem um ofício. Experimente todos os métodos antes de permitir que ele seja alvo da caridade, que pode degradá-lo, por mais ternos que sejam seus sentimentos para com ele". Amém.

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* Apesar de no site Google constar 19.000 a citação quosque tandem…,sistematicamente com esta mesma grafia, segundo correção do meu bom amigo José Stelle, a grafia correta seria quousque. Pelas gramáticas consultadas, tudo leva a crer que o Stelle tem razão. Aguardo comentários.

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23/9/06

Os velhinhos de Taubaté e Gravataí

Davi Castiel Menda

"Estamos disputando a eleição mais desigual da história da humanidade. Somos 120 milhões de eleitores contra apenas 500 corruptos, e provavelmente vamos perder". Solon Magrisso

A década de 50 é considerada o marco inicial da utilização de computadores no processo político - americano, evidentemente - programados para prever, ao final do dia das eleições, baseados nos primeiros resultados, o desfecho mais provável. Na experiência pioneira, as previsões indicaram a vitória de Eisenhower sobre Stevenson, com percentuais rigorosamente e assombrosamente corretos, incentivando os analistas e cientistas políticos a adotarem e aprimorarem o processo. O primeiro político a recorrer ao computador na preparação da sua campanha eleitoral foi Kennedy, com sua equipe projetando eleições simuladas.

O cientista político Eugene Burdick se tornou célebre ao escrever um romance - The 480 - em 1964, prevendo como seria uma campanha presidencial em que as estratégias fossem todas comandadas pelo computador. O autor advertia "que o aperfeiçoamento da mercadologia, combinado com análise das reações dos eleitores computados, acabaria liquidando com o processo eleitoral democrático". Ninguém ligou para a advertência e hoje em dia todos os principais candidatos políticos usam computadores para depurar informações, além de eleições simuladas como teste para a avaliar a estratégia a ser empregada na campanha.

É uma pena, que decorrido meio século (uma eternidade) daquela primeira e bem sucedida experiência americana, sou obrigado a lamentar, como brasileiro, que continuamos na idade-da-pedra neste avanço tecnológico, seja através dos resultados divulgados pelos institutos de pesquisa , pela má utilização dos próprios candidatos, quando não pela descrença dos mesmos quando não-líderes nas pesquisas. Para ilustrar e defender minha tese, sou incitado a recorrer a uma figura da nossa literatura política-humorista: refiro-me à Velhinha de Taubaté, personagem de Luiz Fernando Veríssimo. Mesmo tendo seu falecimento anunciado pelo seu criador, em 19.08.2005, na crônica intitulada Velhinha de Taubaté (1915-2005), para quem conviveu tanto tempo com sua presença, ela continua bem viva e definitivamente incorporada ao nosso dia-a-dia (segundo Veríssimo, ela teria morrido em frente à TV, decepcionada com o quadro político brasileiro, em especial com o seu ídolo, Antonio Palocci).

"Os governos mudam, as promessas se renovam, as autoridades nem tanto, mas se há uma coisa firme no país, é a crença da Velhinha de Taubaté no governo". Pois bem (ou talvez mal), as pesquisas para presidente nestas eleições de 2006 transformaram todo o povo brasileiro, do mais humilde ao mais esclarecido cientista político em "velhinhas de Taubaté" - todos acreditando piamente nas pesquisas eleitorais que indicam a vitória do candidato da situação já no primeiro turno.

Inconformado com aquela insistente divulgação, exaustivamente trabalhada - de que as eleições presidenciais seriam decididas já no primeiro turno - e na verdade curioso de "como um candidato que enfrentou uma turbulência jamais vista nos anais políticos do Brasil, batizada com o sugestivo título de mensalão, com funcionários, secretários, deputados e ministros de seu partido envolvidos direta ou indiretamente, em menos de um ano após o affaire conseguiu atingir o índice de 50% na intenção de votos nas pesquisas? Ou é um caso de indenidade excepcional ou os números não estão refletindo a realidade". - escrevi o artigo Pesquisa eleitoral para presidente - números não fecham…

E agora, para apoquentar a vida do PT - e usando do jargão turfístico - que "levava de barbada" esta eleição, surge um novo - mais um - complicador, de amplo conhecimento de todos (o caso do Dossiê Cuiabá), que na verdade será a tábua de salvação de todos os institutos de pesquisa, jornais, rádios e TV, para justificar a realização do segundo turno.

No dia 21.09.2005, ao ser divulgada a última pesquisa do Ibope pelo Jornal Nacional, era de se notar o constrangimento estampado pela apresentadora, ao enunciar a queda de tão somente 1% na intenção de votos ao candidato-presidente, mesmo depois do último (será mesmo o último, ou ainda tem mais?) escândalo patrocinado pelos integrantes do PT.

Ontem (22.09.2006), o provedor Terra, na sua página principal, realizou uma enquete nacional: você acredita que uma virada é possível na eleição presidencial? Desconheço o resultado final, mas às 17.25 horas, os internautas que haviam respondido sim, que acreditavam numa mudança, somavam 52.536 votos, num percentual de 64% sobre o total, um número considerável, e  bem acima dos 50% de intenção de votos apregoados ao candidado-presidente. Aritmeticamente raciocinando, 64% mais 50%, por mais que se tente, não é um resultado muito acreditável, pois nos bancos escolares aprende-se que percentuais (teoricamente falando) devem somar sempre cem por cento.

Apesar de estarmos na reta final, e mesmo os institutos e datas da vida divulgando clamorosa e insistentemente a vitória de Lula no primeiro turno, continuo a duvidar. Será que somente às 17 horas do dia primeiro de outubro, encerradas as eleições, é que divulgarão a realização do segundo turno?

Se porventura eu estiver certo nas minhas previsões, tenho todo o direito de criar um novo personagem em contra-ponto à Velhinha de Taubaté: o Velhinho de Gravataí - aquele que não acredita em pesquisas! A bem da verdade, em pesquisas fundamentadas ele acredita - o que roda por aí é quiroscopia.

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21/9/06

2066: dia de eleição

Davi Castiel Menda

"O que acontece quando a presidência se torna uma tarefa tão descomunal e complexa que nenhum homem é capaz de resolver sozinho?" - Michael Shaara

Um dos ditos mais conhecidos e já incorporado ao anedotário popular, atribuído a operários, quando na procura de emprego, é a afirmação simplista de que "na situação que eu estou, até de engenheiro eu pego"!
Por ter trabalhado durante oito anos na construção civil, posso afirmar e testemunhar de que, se realmente esta situação utópica - o oferecimento do cargo de engenheiro a um operário sem qualificação profissional - ocorresse, existiria uma probabilidade muito próxima de 100% do operário aceitá-la, mais pensando na resolução dos seus problemas financeiros e pessoais do que propriamente nas atribuições e responsabilidades que o cargo requer. Na verdade, não é tão utópica assim, pois algumas empresas - uma minoria, é claro - ligadas ao setor, que trabalham por regime de administração, costumam promover alguns funcionários a cargos bem acima da sua capacitação profissional, proporcionando-lhes um salário mais elevado e, em conseqüência, aumentando seu faturamento (da empresa), pois seus ganhos são calculados sobre a folha de pagamento.

E o que tem a ver operários ocupando especulativamente o cargo de engenheiros com dia de eleição? A melhor resposta eu fui encontrar numa citação de Harry Larkin, personagem fictício do escritor Michael Shaara em conto publicado em 1956, lembrando-se da sua infância: "Naquele tempo havia exames para tudo - não se podia obter um emprego de gari sem fazer concurso para funcionário público - mas para os cargos mais importantes não se exigiam qualificações. E primeiro os psicólogos, depois a imprensa, começaram a dizer que isso era uma calamidade nacional. E, em vista do calibre de certos figurões que ocupavam plano destacado na vida pública do país, não havia dúvida que era mesmo. Mas aí os testes psicológicos passaram a ser indispensáveis, transformando-se realmente em ciência exata, de maneira que se tornou possível fazer a triagem completa de cada candidato - do nível de conhecimentos, potencial e personalidade".

2066: dia de eleição (o conto de Michael Shaara) foi publicado exatamente há 50 anos, mas pela sua previsibilidade e clarividência se identifica com uma leitura muito atual. Aproveitando o gancho, não está na hora de dar um basta a candidatos sem o menor preparo e condição, que se utilizam - valendo-se do horário eleitoral gratuito - dos meios mais esdrúxulos, burlescos, abstratos, grotescos e outros adjetivos que os limites da educação e da ética me impedem de expor, para atingir seus objetivos eleitoreiros, aliás, um prato cheio para o estudo da demopsicologia? Todos esses candidatos que se apresentam como salvadores da pátria, será que porventura tem um mínimo preparo para representar uma comunidade, seja em âmbito municipal, estadual ou federal, desde a vereança até a presidência da república?

Pensando no interesse nacional, no bem comum de 180 milhões de brasileiros, não está na hora de se eleger, abrir aspas, os candidatos que reunissem os melhores predicados, fechar aspas, independente de quaisquer circunstâncias, de partido, cor, religião ou raça? Eu, pessoalmente, descarto candidatos com conhecimentos genéricos, alguns semi-analfabetos, imbuídos de magnanimidade patusca, com uma vontade férrea e "desinteressada" de resolver os meus (e os seus) problemas de educação, saúde e segurança. Quero sumidades, quero candidatos submetidos a uma triagem completa que avalie seu potencial e personalidade, que sobressaiam às outras pessoas por seus talentos e saber em todas as áreas, que sejam preparados desde os bancos escolares mais primários para ocupar estes cargos. Os brasileiros estão fartos da política praticada de maneira amadora e da politicalha.

Harry Larkin, nosso herói imaginário, mas ao mesmo tempo tão convincente, se elege como primeiro mandatário dos Estados Unidos em 2066, e ao visitar o presidente ainda no cargo, recebe o seguinte conselho: "Se eu assino uma lei fiscal, preciso entender bastante de legislação tributária para ter certeza que a lei é conveniente. Se endosso uma ação policial, devo estar certo de que a estratégia correspondente é militarmente eficaz". "O cargo é responsável pelos atos que pratica. Tem que continuar responsável. Não se pode aceitar simplesmente a palavra de terceiros…".

Michael Shaara, você não escreveu este conto em 1956; ocorreu algum transtorno einsteiniano! Você estava de visita ao Brasil e escreveu isto ontem - ontem não - hoje!

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19/9/06

As urnas eletrônicas e a zerézima

Davi Castiel Menda

"Se você acredita que a tecnologia pode resolver seus problemas de segurança, então você não conhece os problemas e nem a tecnologia."
Bruce Schneier

O Titanic, em sua viagem inaugural, ao zarpar de seu porto de origem, ostentava o título de insubmergível, e era tanta a autoconfiança do engenho humano, que os jornais da época afirmaram que "Nem Deus poderia afundar esse navio". Bill Gates, o papa da informática, em 1981, nos brindou com a pérola "640 kb de memória é mais do que suficiente para qualquer um". Thomas Watson, presidente da IBM, em 1943: "Penso que há talvez no mundo um mercado para cinco computadores". Mas a campeã das afirmações estapafúrdias deva ser creditada a Charles Duell, Diretor do Departamento de Patentes dos Estados Unidos, em 1899: "Tudo que podia ser inventado, já o foi", propondo inclusive o fechamento dos escritórios que dirigia. Pelos exemplos, concluímos, já no início do artigo, de que afirmações exageradamente desmedidas tendem, com o passar do tempo, a mostrar-se equivocadas, quando não beirando ao ridículo.

Implantada no Brasil em 1996, a votação eletrônica, segundo o TSE, baniu de vez a possibilidade de fraude eleitoral, com a afirmação dogmática de que o sistema é seguro, indevassável. Entretanto, estas condições até hoje são questionadas por estudiosos, programadores, os próprios partidos, e porque não, por boa parcela da população brasileira.

Alguns defensores das urnas eletrônicas, na ânsia de afirmar que o sistema é infalível, declaram com ares de ufanismo simplório que o Brasil, ao comercializá-las para outros países, está exportando democracia(!), embaralhando comércio e tecnologia com patriotada. Paulo Gustavo Sampaio Andrade, editor do site Jus Navigandi, traduz de forma muito simples e direta a opinião de quem põe em dúvida a assertiva governamental: "Se o sistema eletrônico eleitoral é imune a fraudes, considerada uma suposta perfeição técnica e a natureza biológica das pessoas envolvidas" - compara ele - "o sistema financeiro já teria adotado o projeto e contratado as pessoas que criaram e utilizam o sistema eleitoral eletrônico para pôr fim aos inúmeros golpes existentes, por exemplo, nos caixas eletrônicos e nos bancos via internet".

A desconfiança baseia-se em dois pontos cruciais. O primeiro, é saber se realmente o voto digitado a um determinado candidato é efetivamente computado e creditado a ele. O segundo questionamento é a probabilidade de violação da identidade do eleitor, a exemplo do acontecido em recente episódio no Senado, quando determinado grupo teve acesso a quem votou em quem.

O Eng. Amílcar Bruzano Filho, um especialista na área, compara a urna eletrônica à "uma máquina de votar inauditável, uma verdadeira caixa preta da qual nenhum partido político, fiscal ou auditor externo ao TSE, jamais teve acesso para conferir sua integridade". E complementa Bruzano: "o que o TSE chama de auditoria é colocar alguém em frente à urna. Isso não é o processo de exame de um sistema, mas um artifício. Um show".

O povo em geral - onde eu me insiro - pouco acesso tem ao assunto, mas pesquisando, toma-se conhecimento de que existem dois Sistemas Operacionais vigentes: o VirtuOs (que pertence a uma empresa privada) e o Windows CE, com mais de seis mil programas e dois milhões de linhas de código, tornando muito difícil a sua análise, se é que estão disponíveis. Esta falta de transparência é que compromete o primeiro pilar de um legítimo processo eleitoral: a votação. Os outros dois são a apuração e a fiscalização. A fase de apuração nos remete às eleições de 1982 no Rio de Janeiro e a famigerada Operação Proconsult, nome da empresa encarregada de proceder à apuração e que teve como objetivo "virar" os resultados de uma eleição já ganha por Leonel Brizola sobre o candidato do Governo federal na época, Moreira Franco. A sistemática consistia em sonegar os resultados da capital (dois terços do eleitorado), onde Brizola alcançara 70% dos votos, e só divulgar uma média da apuração no interior do estado, onde Moreira era majoritário. Não fosse a pronta intervenção de Brizola, exigindo falar à nação pela Rede Globo - que insistia em divulgar a vitória de Franco - a história seria diferente. Quanto à fiscalização, é totalmente inócua - se é que existe - fautor que provoca a incredulidade no sistema.

Existem n maneiras possíveis de fraude na votação, o TSE tem a obrigação de conhecê-las e toda a comunidade digital espera que as coíba com sucesso, mas nada impede de enumerá-las: clonagem de urnas; engravidamento da urna, com mesários em conluio na ausência de fiscais; fraude na apuração, já que o boletim de urna impresso quando do encerramento da eleição nem sempre é entregue ao fiscal; possibilidade de fraude no programa implantado na urna; adulteração dos programas originais implantados nas urnas; e por último, o maldito vírus - e por trás dele os crackers - que tanto mal tem causado em todas as áreas de atuação onde o computador está presente.

Mas afinal, o que é zerézima, presente no título deste artigo? É o neologismo criado pelos técnicos do TSE para indicar que cada candidato, no início do processo eleitoral, tem na verdade zero votos. É a garantia de que todos partem realmente do zero. Lamentavelmente, não é garantia nenhuma, já que qualquer programador, mesmo principiante, sabe perfeitamente que é possível digitar algo, a impressora reproduzir este algo, mas armazenar "o que se quer" na memória do computador. É uma pena que toda a garantia que o TSE nos ofereça seja apenas a zerézima, ou seja, zerézima garantia.

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14/9/06

Urnas Eletrônicas - confiáveis ou não?

“O que importa não é quem vence, e sim quem conta os votos” – Joseph Stalin

Davi Castiel Menda

Antes que você, prezado eleitor brasileiro, tente me desqualificar, gostaria de lhe lembrar de que, em 1982, quando você talvez nem conhecesse o vocábulo computador (ou quiçá tivesse nascido), eu já tivera três deles e, indignado por outros brasileiros não poderem desfrutar daquele aparelhinho que prometia ser um dos maiores avanços tecnológicos da humanidade, eu, com dois outros amigos, instalamos uma fábrica de computadores. Veja bem, Fábrica, e não uma montadorazinha de fundo de quintal. E um computador que deu o que falar na época. Portanto eleitor brasileiro – de computadores, eu entendo!

Antes que você, prezado eleitor brasileiro, tente me desqualificar, gostaria que acessasse o Google, digitando meu nome completo, e você vai verificar que meus conhecimentos matemáticos e estatísticos são reconhecidos nacionalmente. Portanto eleitor brasileiro – de matemática, eu entendo!

Antes que você, prezado eleitor brasileiro, tente me desqualificar, gostaria que lesse trechos de dois artigos abaixo, publicados em Zero Hora:

14.11.85 – Apuração paralela – Enquanto os computadores do TRE estiverem trabalhando no resultado das eleições, a 111a. Junta Eleitoral já terá o resultado das 270 mesas que a constituem. Isto porque a Junta contará com a ajuda de um computador e de uma programação feita por empresa especializada.

A bem da verdade, gostaria de lhe informar que a empresa especializada era de minha propriedade e a programação pessoalmente desenvolvida por mim (a cessão do micro e do software foi totalmente graciosa).

19.11.86 – Microcomputador é o sucesso da 111a. Zona – Uma economia de tempo de 40 minutos em cada urna apurada é o resultado da experiência que deu certo já no segundo ano consecutivo, na junta apuradora da 111a. Zona: a utilização de um microcomputador, cortesia do secretário da Junta, Davi Castiel Menda.
…..
No entanto, Davi Castiel, a convite do presidente da Junta Apuradora, Juiz Jorge Perrone, sofisticou o serviço da Secretaria, através do computador. Etc. etc. etc.

Portanto prezado eleitor brasileiro – de apuração de eleições, eu entendo!
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Mas o assunto é “Urnas Eletrônicas”. Afinal, pode-se confiar nelas ou não? Comece lendo um trecho de artigo publicado por Ipojuca Pontes em 29.08.2006:

“Por sua vez, o leitor Rodolfo Hazelman, advogado em São Paulo, capital, ficou estupefato quando viu numa reportagem do Jornal da Band, um empresário de Guarulhos comprovar, a partir de dados fornecidos pelo próprio TRE, a ocorrência de fraudes nas urnas eletrônicas, na última eleição municipal daquela cidade. Ele acha o fato da maior gravidade, visto que, no Brasil, as urnas eletrônicas são vendidas como à prova de fraude - quando, de fato, não são”!

Já o leitor de nome Márcio, mais audacioso, identifica a irregularidade dos números das pesquisas em favor do candidato-presidente como uma espécie de preparação psicossocial para contestar o futuro resultado das urnas eletrônicas fraudadas. Para dar credibilidade a sua argumentação, Márcio informa, depois de transcrever substanciosa aula sobre urna eletrônica, que a única possibilidade de se garantir a integridade das urnas é o acoplamento de uma impressora dentro do aparelho, que por sinal já existe, mas que, "por proibição de Nelson Jobim (ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral), não deverá ser usada para imprimir os votos" comprobatórios.

Na aula técnica transcrita, feita pelo especialista Carlos Tebecherani, é assinalado que se o programa (software) da contabilidade dos votos for alterado para que desvie somente 1 voto em branco (ou nulo) por urna, para um determinado candidato ou legenda partidária, só em São Paulo, por exemplo, cerca de 85 mil votos poderiam ser "remanejados". Sobre a "inauditabilidade" das urnas eletrônicas, uma eterna preocupação do falecido engenheiro Leonel de Moura Brizola, o especialista Tebecherani - apoiado em análises de professores e cientistas dos mais diversos centros de ensinos nacionais e internacionais - considera que os seus programas "são facilmente passíveis de alteração", sendo a própria "urna passível de ataque externo sem que o lacre que a encerra seja rompido".

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Continuando este despretensioso artigo, cito trechos do escritor, editor, pensador e intelectual José Stelle (que na sua modéstia se auto-intitula tão somente aspirante a political philosopher) em e-mails a mim dirigidos, e antecipadamente peço-lhe perdão por dar ciência aos que os lêem, sem saber da sua concordância ou não em editá-los. Se eu não os divulgasse, estaria pensando e agindo egoisticamente no meu bem próprio, sem considerar aos interesses alheios.

“Mas devemos levar em conta que a fraude eleitoral pode causar distúrbios. O PT não vai simplesmente aceitar ser alijado do poder. Eles pensam ter a deusa HISTÓRIA do seu lado, o que justificaria tudo. E como disse Stalin: “O que importa não é quem vence, e sim quem conta os votos”.

Esta última frase é genial, e não sei se o mérito deva ser dado ao autor, Stalin, ou ao Stelle (afinal, são quase homônimos) que a garimpou! Mas prossegue Stelle:

“Não vou por ibopes, e sim pela lei natural, pela sensibilidade, e pela razão. E leio as entrelinhas das conversas com parentes e outros no Brasil, por telefone ou quando visito. O tom de voz, as respostas descuidadas, as projeções da Síndrome de Estocolmo, o que Ayn Rand denominou “a sanção da vítima” - tudo isso mostra o efeito da desinformação petista. Isso não ocorre só com eles, mas no país todo. Além disso, o Lula não banca na classe média; a base dele está na classe baixa, que é a maior. Uma clínica de bairro que salva uma criança, ou dispensa um remédio grátis, vale mais que um quarteirão da burguesia, que já é socialista de certo modo, quando não de verdade. Classe média e alta é sobremesa; come se tiver”.

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Para concluir, resumo a minha opinião em simples constatações:

- os maiores conglomerados do mundo, os bancos que giram com fortunas imensuráveis, as empresas aéreas, a Nasa que lida com um orçamento bilionário, e até o Pentágono, que teoricamente deveriam operar com os softwares mais indevassáveis, ainda hoje sofrem ataques permanentes de crackers (termo usado para designar quem quebra um sistema de segurança, de forma ilegal ou sem ética – o termo foi criado em 1985 pelos hackers em defesa contra o uso jornalístico do termo hacker). Se a sua memória não é curta, prezado eleitor brasileiro, deve se lembrar de recente episódio no Senado – invasão do painel de votação - que inclusive originou a renúncia do todo poderoso Senador Antonio Carlos Magalhães.

- o questionamento, analisando a situação com a frieza e imparcialidade que o assunto requer, não é a urna propriamente dita - não conheço sua sistemática interna e nem vem ao caso conhecê-la. O problema é o depois: o day after. É a manipulação (termo que pode – e na verdade é o que pretendo - produzir interpretação ambivalente) que sofre o processo quando os dados são totalizados e passam a ser digitados manualmente. É o ponto fraco, o calcanhar de Aquiles. Morreu o controle. Foi-se a garantia. Acabou a confiança – o processo passa a ser humano e todos nós sabemos que nestas condições a falibilidade se diz presente.

- quais os motivos das grandes potências, com inegável superioridade sobre nós, tanto em hardware como em software, até hoje não utilizarem semelhante sistema?

Lamento. Como brasileiro e programador, gostaria de acreditar na lisura e na infalibilidade do sistema, mas quem afirma que as urnas eletrônicas são à prova de fraude, provoca risos na comunidade ligada à informática – e não são poucos.

criado por projetosnumericos    20:49 — Arquivado em: Opinião, Política

7/9/06

O Jogo e as Leis de Murphy

Criação, adaptação e compilação: Davi Castiel Menda

Bingo
Existe uma fórmula facílima de sair com uma pequena fortuna de um bingo; basta entrar com uma grande fortuna.

Ao perder os seus últimos centavos não considere como um fracasso completo - sempre poderá servir como exemplo negativo para o futuro.

O homem que consegue sorrir ao verificar que acabou de perder suas últimas economias no bingo, é porque viu alguém conhecido para fazer um vale.

Cassino
Os primeiros noventa por cento do tempo que você permanece no cassino, tomam noventa por cento do que você possui na carteira. Os últimos dez por cento do tempo, tomam os cem por cento do limite do seu cartão de crédito.

Se você entrar num cassino com esperanças de ganhar - você perderá; se pretender passar o tempo e só empatar - você perderá; se pretender perder mesmo - nem se fala…

O momento em que dá o seu número de sorte na roleta, três vezes seguido, coincide com o momento exato em que você não tinha mais fichas para apostar.

Para conseguir um empréstimo com o gerente do Cassino, basta você provar que não precisa.

Um objeto sempre cai do jeito que causa mais dano, incômodo ou prejuízo. Se você, no cassino, deixar escapar da mão a última fichinha, ela cairá exatamente na frente de um crupiê, que agradecerá em altos brados: "Profissionais - obrigado"!

Quando um grande matemático e jogador, autor de diversos ensaios e livros sobre como ganhar no cassino, admirado e respeitado mundialmente, parece mergulhado em profundos pensamentos em qual número apostar na roleta - é decepcionante - em geral ele estará pensando como irá pagar o hotel e o almoço do dia seguinte, já que perdeu todo o dinheiro que tinha.

Se você estiver ganhando, não se preocupe. Isso passa.

Loterias
A probabilidade de você ganhar um grande prêmio em dinheiro, está na razão inversa do quanto é desejada (ou pior ainda: necessitada).

Expectativas negativas produzem resultados negativos. Expectativas positivas produzem resultados negativos.

A possibilidade de você ganhar na Loteria aumenta ligeiramente se você comprar um bilhete.

Mega Sena - (visão pessimista)
A probabilidade aritmética de você acertar na mega sena é de uma em 50.063.860.

Mega Sena - (visão otimista)
Mesmo apostando um único cartãozinho, você só tem duas possibilidades na Mega Sena: 50% de chances de acertar e 50% de chances de errar, já que as coisas acontecem ou não acontecem.

Lei da Mega Sena acumulada
A probabilidade de ganhar é inversamente proporcional ao montante acumulado.

Pôquer no morro
Um 38 cano longo ganha de 4 ases.

Turfe - Lei chinesa
Cavalo ganha uma vez - sorte; cavalo ganha duas vezes - coincidência; cavalo ganha três vezes - aposte sempre neste cavalo.

Xadrez
O número de pessoas olhando o seu jogo é diretamente proporcional à estupidez de sua jogada.

Lei da Afirmação Monetária
Você não precisa apostar pensando em ficar rico, desde que possa viver com conforto e ter tudo que quiser.

Comprovação estatística para todo tipo de apostas

Tudo que acontece uma vez, pode nunca mais acontecer…
Mas tudo que aconteceu duas vezes, certamente acontecerá uma terceira!

criado por projetosnumericos    10:14 — Arquivado em: Jogos & Loterias

Sena - Uma aposta na certa!

Davi Castiel Menda

Baseado em fatos reais.

A sorte existe! Muitos a encontram na magia do jogo. De qualquer forma, a esperança, o prazer, a sociabilidade durante a espera na fila de uma agência lotérica, insere o apostador na verdadeira confraria que durante aquele instante se estabelece, mesmo entre estranhos reunidos, que nem sequer se falam, mas todos cúmplices e solidários, com o mesmo objetivo: vencer o sistema - ganhar!
Por outro lado, a agência lotérica, a banca (no sentido legal da palavra), do projeto ao funcionamento, precisa ser, ao mesmo nível das mais sólidas instituições: de impecável honestidade. O menor deslize é fatal. Por mais contraditório que possa parecer, é no jogo que vale a palavra, o caráter, a credibilidade.
Apostadores com poderoso cacife financeiro de um lado, a Caixa do outro, e de entremeio uma Sena (aposta que posteriormente foi substituída pela Mega Sena) acumulada no valor de R$ 18 milhões: misture estes três fatores e estava criada uma das idéias mais admiráveis - e corajosas! - em matéria de apostas até hoje imaginadas, que poucos tomaram conhecimento, e que quase deu certo…
Eu, na condição de matemático, dava assessoria na lotérica a pessoas interessadas em desdobramentos por computador - isto em meados dos anos 90 - quando recebi um telefonema, um tanto misterioso. Meu interlocutor apresentou-se como empresário do interior do estado, mostrando-se interessado em apostar naquela Sena que vinha desafiando há semanas os apostadores. Pelo teor da conversa, aparentava ser um homem culto e inteligente, mas perdeu um pouco da credibilidade quando me questionou de quanto seria necessário para apostar todas as combinações. Por ser uma pergunta que seguidamente me faziam, já tinha uma resposta pré-pronta:
- Precisaríamos vender o Edifício Santa Cruz (o mais alto de Porto Alegre, situado na Rua da Praia, a mais central da capital gaúcha)! Caso o senhor não saiba, o valor desta aposta custaria pouco mais de R$ 12 milhões e duzentos mil!
Pode parecer um exagero, mas cheguei a sentir pelo telefone a indignação do outro lado da linha, e como que por telepatia, vi que meu interlocutor não estava brincando, e o que é pior (ou melhor?), ele já sabia do valor, e realmente estava disposto a apostar aquela quantia. Respondeu-me ele:
- Acompanhe meu raciocínio: a Sena vem acumulando praticamente R$ 2 milhões por semana. Neste ritmo, dentro de três semanas, atingirá R$ 24 milhões. Caso eu e meus sócios apostemos neste concurso, o valor pulará para R$ 27 milhões. Como estamos apostando todas as combinações, é certo que nossa aposta será vencedora. Na hipótese de ser somente a nossa aposta, a relação custo/benefício será fantástica: superior a 100% em uma semana. Mesmo que haja outro ganhador, ainda assim teremos um lucro de 10%, que considerado o valor em jogo e o tempo empregado, também é ótimo. E para arrematar: que eu saiba nunca aconteceu da Sena ter três ganhadores, e nós estamos dispostos a arriscar esta importância.
Atônito pela proposta, a primeira coisa que me veio à cabeça foi:
- Mas não pode ser em cheque! Tem que ser em dinheiro!
Posteriormente, trocamos alguns telefonemas, preparei o programa que desdobraria os quase 60.000 volantes - todos de 10 dezenas - que seriam necessários a cobrir a integralidade das combinações, contatei vários lotéricos que se encarregariam de passar a aposta na máquina, enfim, tudo pronto para a grande jogada.
A torcida foi imensa, mas na semana que se concretizaria a maior aposta - possivelmente do mundo - a Sena encontrou um acertador, que levou para casa R$ 22 milhões, sepultando a idéia.
Não cheguei a conhecer pessoalmente o apostador; mas por ter ele fornecido seu telefone e pela segurança com que conduziu a negociação, sei que não foi trote.
E antes que alguém se habilite novamente, no presente momento, pela premiação existente em quaisquer dos jogos da Caixa, esta idéia se tornou inexeqüível. Pena…

criado por projetosnumericos    10:08 — Arquivado em: Jogos & Loterias

4/9/06

Pesquisas Presidenciais- Números não fecham…

Davi Castiel Menda (*)

"Numa cidade de n + 1 habitantes, uma pessoa conta um boato a uma segunda, a qual, por sua vez, o repete a uma terceira, etc. A cada passo a pessoa que recebe o boato é escolhida aleatoriamente dentre as pessoas disponíveis. Ache a probabilidade de que o boato seja transmitido r vezes sem voltar à primeira pessoa que o contou".
Este problema foi originado e apresentado por de Mèré, em 1654, a Pascal, e, respeitadas as proporções - mesmo decorridos 352 anos - e acrescido dos modernos meios de comunicação, nunca foi tão atual!

Nas últimas eleições presidenciais, o atual Presidente Luiz Inácio Lula da Silva obteve exatos 46,44% de votos no primeiro turno. O que não consigo inferir, com todo o meu discernimento matemático cultivado ao longo de seis décadas - e gostaria (sinceramente) que alguém me explicasse - como um candidato que enfrentou uma turbulência jamais vista nos anais políticos do Brasil, batizada com o sugestivo título de mensalão, com funcionários, secretários, deputados e ministros de seu partido envolvidos direta ou indiretamente, em menos de um ano após o affaire conseguiu atingir o índice de 50% na intenção de votos nas pesquisas. Ou é um caso de indenidade excepcional ou os números não estão refletindo a realidade.

Um dos pilares (o principal) em que se baseiam aqueles que acreditam piamente nos resultados destas pesquisas, e a conseqüente vitória de Lula já no primeiro turno, seria a supremacia do candidato-presidente na região Nordeste. Vamos ao mapa:

O Nordeste compreende nove estados brasileiros e seu universo representa apenas 27,11% do eleitorado brasileiro. Pouco mais do que um quarto dos eleitores não pode, jamais, decidir uma eleição; ajuda, isto sim. Nos aprofundando um pouco mais nas caatingas nordestinas, deparamos com o maior estado da região, a Bahia do cacique ACM e seu candidato a governador Paulo Souto. Mais uma vez a tão propalada superioridade numérica do PT no nordeste é questionada: Paulo Souto (PFL) tem 52% das intenções de voto e o candidato governista-petista Jaques Wagner (ex-ministro) tão somente 16%. Admitindo que todos aqueles que votarem em Paulo Souto concedam também, por lógica, seu voto a Alckmin, só aí já seriam 4,7 milhões de votos ao tucano. Se você pensa que é pouco, isto representa 3,2% dos votos de todo o país - só na Bahia!
Em Pernambuco, a história se repete: o candidato ao governo, pelo PFL, Mendonça Filho, leva 12% de vantagem nas pesquisas sobre o candidato Humberto Costa (ex-ministro) do PT: mais dois milhões de votos ao candidato Alckmin. E assim por diante…
Num apanhado geral, na região onde pretensamente o PT afirma que vai decidir as eleições, leva vantagem nas pesquisas para o governo do estado somente no Piauí e em Sergipe - dois estados em nove! Convenhamos, é muito pouco…

Do Nordeste pulamos para o Norte, região com o menor colégio eleitoral brasileiro: 7,00% dos eleitores, metade deles residindo no Pará. E, curiosamente, quem está à frente nas pesquisas ao governo do estado? O candidato do PSDB Almir Gabriel com 20 pontos percentuais de vantagem sobre a candidata petista. E mais uma vez a mesma leitura: sete estados e em apenas um (Acre - Binho Marques) o PT leva vantagem.

Centro-oeste - 7,06% do eleitorado. Nos quatro estados da região, o único candidato petista ao governo que aparece entre os dois melhores posicionados na intenção de votos é Delcidio Amaral pelo Mato Grosso do Sul. Está em segundo: 38 pontos percentuais o separam do candidato que lidera. Nem a sua constante visibilidade na TV, na condição de presidente da CPI dos Correios, o ajudou.

Na região Sul - 15,12% dos eleitores: nos três estados os candidatos pelo PMDB lideram a intenção de votos a governança do estado. No Rio Grande do Sul, as pesquisam apontam empate técnico entre os dois principais candidatos à presidência. Desconheço a situação de Santa Catarina e Paraná, mas sei que os candidatos ao governo de seus respectivos estados Luiz Henrique (SC) e Roberto Requião (PR) apóiam Geraldo Alckmin.

E finalmente a grande massa votante: o Sudeste. São 55 milhões de eleitores - 43,70%, já que abrange os três maiores colégios eleitorais do país: só em São Paulo são 28 milhões de eleitores! Lá, José Serra, que pelo menos (!) deveria ser o maior cabo eleitoral de Alckmin, leva vantagem sobre Aloizio Mercadante (PT) em 28 pontos percentuais. Se transferidos os votos de Serra para Alckmin (e por que não?), somente no estado de São Paulo, o candidato que está em segundo nas pesquisas presidenciais apregoadas, teria a "bagatela" de 12,9 milhões de votos - mais de 10% dos votos válidos em todo o Brasil. Nas Minas Gerais, do já reeleito governador pelo PSDB, Aécio Neves, a vantagem sobre o candidato do PT é acaçapante - 62 pontos percentuais: mais 9,4 milhões de votos para a bagagem de Alckmin.

Poderia me estender estado por estado, mas isto se tornaria enfadonho. Apenas para concluir este estudo, no somatório dos votos de apenas quatro estados, acima analisados individualmente, Bahia (4,7 milhões), Pernambuco (2,0 milhões), São Paulo (12,9 milhões), Minas Gerais (9,4 milhões), dariam a Alckmin 29 milhões de votos - 23% do total nacional - numero já superior ao atribuído (na soma dos 27 estados) nas pesquisas divulgadas insistentemente pela mídia. Será que no Rio de Janeiro, Espírito Santo, região Sul, e em todos os outros estados brasileiros Alckmin não fará nenhum voto?

O que se depreende de tudo isto, pelos baixíssimos índices eleitorais do PT, é a tentativa de dissimular e desvincular o candidato à presidência pelo PT, do PT. Na verdade, o PT não tem candidato já que o candidato que deveria ser do PT é candidato de si mesmo!

O candidato-presidente pode até ganhar a eleição, já que a máquina administrativa-partidária-governamental tem trabalhado full time e usando de todos os meios possíveis e inimagináveis para atingir este objetivo. Mas ganhar no primeiro turno?! A quem querem enganar? Por favor, senhores…

(*) Davi Castiel Menda, o autor deste texto, é conhecido como um dos maiores estudiosos sobre Loterias no país (leia-se Estatísticas), o que pode ser comprovado pela extensa aparição na imprensa escrita e falada, inclusive tendo o fato sido citado no Senado Federal, durante sessão daquela Casa, pelo Senador Demóstenes Torres. O autor é totalmente apartidário (vota em indivíduos, não em partidos) e, mesmo o voto sendo secreto (se é secreto, como os pesquisadores de campo dos Institutos de Opinião podem inquirir eleitores sobre suas preferências eleitorais?), faz questão de abrir seu voto: Cristovam Buarque. E na sua nominata para o dia primeiro de outubro, há inclusive candidato do PT.

criado por projetosnumericos    11:43 — Arquivado em: Política
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