27/9/06
Caterva
Davi Castiel Menda
Quosque tandem abutere, caterva, patientia nostra? *
Quosque tandem abutere, CNT-Sensus, Datafolha, Globo-Ibope, patientia nostra? *
Nos bons tempos (para quem já desfruta de filas liberadas nos caixas de instituições financeiras e supermercados, bons tempos nos remete há pelo menos 50 anos), aprendia-se latim nos bancos escolares. A insistência generalizada, com a alegação de que era uma língua morta, extinguiu o latim do curriculum - aliás, palavra essencialmente latina - escolar, liquidando-o literalmente, pela segunda vez. Quosque tandem abutere, Catilina, patientia nostra? - a frase original - era o carro-chefe de qualquer professor de latim que se prezasse; intelectualmente construía a primeira aula, era a nossa apresentação àquela língua que para a maioria não tinha a menor serventia, a não ser aos futuros bacharéis, o que não era o meu caso. A frase é atribuída a Cícero, que a repetia insistentemente no senado romano, questionando o limite da paciência do povo romano das atitudes impróprias e incoerentes do general Lucius Sergius Catilina. As duas primeiras letras do nome do general inconscientemente me impelem a cismar numa coincidência atroz, mas, deixa pra lá… Substitua-se Catilina por nomes e/ou situações atuais, a exemplo do exercício de imaginação que desenvolvi no início deste artigo, e a frase parece ter sido pronunciada ontem, e não há dois mil anos.
Pois a caterva "aloprada" aprontou mais uma! Um milhão e setecentos mil reais seriam pagos por um dossiê de eficiência e origem duvidosas. Um milhão e setecentos mil reais, entre valores genuinamente tupiniquins, acrescidos das tão disputadas notinhas esverdinhadas. Você, votante do candidato-presidente, que recebe um salário mínimo por mês, seja trabalhando, seja do bolsa-família, ou até como aposentado, tem idéia de quanto representa esta quantia? É exatamente o que você ganharia no período de 405 anos, é claro, se o Criador permitisse que você vivesse por todo este tempo. Se você ainda não racionalizou e deglutiu perfeitamente o alcance da frase anterior, eu tenho a paciência que Cícero tanto implorava ao povo romano, e explico com mais detalhes: para entrar de posse desta dinheirama, você teria que trabalhar durante pouco mais de quatro séculos e, se durante todo esse tempo não se alimentasse, não precisasse adquirir roupas, não ficasse doente, não fosse a uma partida de futebol, não tomasse uma cervejinha, não festejasse o aniversário de um filho, você teria juntado o suficiente para comprar o dossiê Cuiabá. É tanto dinheiro, que o povo foi privado de vê-lo em fotos e, porque não, admirá-lo, pois é uma quantia que a maioria dos mortais jamais poderá apalpar, que dirá possuir (exceção ao ganhador da mega sena acumulada de hoje). Pelo menos, que nos dessem esse prazer…
E mesmo com toda esta quizilenta situação, gerada pelo próprio Partido dos Trabalhadores, os três principais institutos de pesquisa e consultoria continuam apregoando a vitória do candidato-presidente ainda no primeiro turno. O censo da mineira Sensus - Pesquisa e Consultoria, divulgado hoje (27.09.2006) nos principais jornais do país - com o perdão do trocadilho - é um contra-senso, um disparate ofensivo à inteligência de brasileiros que - ainda - pensam e raciocinam.
Apesar de tê-lo feito em artigo anterior, faço questão de novamente citar José Stelle, pensador brasileiro radicado no exterior: "Não vou por ibopes, e sim pela lei natural, pela sensibilidade, e pela razão. E leio as entrelinhas das conversas com parentes e outros no Brasil, por telefone ou quando visito. O tom de voz, as respostas descuidadas, as projeções da Síndrome de Estocolmo, o que Ayn Rand denominou a sanção da vítima - tudo isso mostra o efeito da desinformação petista. Isso não ocorre só com eles, mas no país todo".
Basta que, de cada 10 eleitores que pretendessem votar no candidato da situação, um, apenas um em cada dez, troque de lado, insatisfeito com os escândalos presenciados e vividos com uma impressionante regularidade e definitivamente incorporados ao nosso cotidiano, e a vitória no primeiro turno tão apregoada com altivez, arrogância, presunção e sobrançaria, caia fragorosamente por terra.
Se eu estiver enganado, dou mão a palmatória, e mesmo professando outra religião, vou pessoalmente encabeçar uma petição ao Papa Bento XVI (só faltava ser Bento XIII) exigindo do Vaticano que o "homem" seja alçado à condição de santo, pois depois de tudo o que aconteceu no país, eleger-se no primeiro turno, só um milagreiro! A propósito, tendo em vista que inesperadamente o artigo transmigrou de política para religião, gostaria de encerrá-lo com uma citação do Talmud: "Tente evitar a pobreza, ensinando a cada homem um ofício. Experimente todos os métodos antes de permitir que ele seja alvo da caridade, que pode degradá-lo, por mais ternos que sejam seus sentimentos para com ele". Amém.
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* Apesar de no site Google constar 19.000 a citação quosque tandem…,sistematicamente com esta mesma grafia, segundo correção do meu bom amigo José Stelle, a grafia correta seria quousque. Pelas gramáticas consultadas, tudo leva a crer que o Stelle tem razão. Aguardo comentários.
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