Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

8/3/06

Poupança sextilionária

Davi Castiel Menda

Uma boa parcela de conhecidos meus, apostadores bissextos em loterias, fica apavorada só de imaginar a possibilidade de ganhar um prêmio multibilionário. Alegam estes novos-pseudo-milionários que não saberiam como administrar uma imensa fortuna obtida inopinadamente, e que esta situação só atrapalharia seus planos, que normalmente obedecem a um padrão fixo e determinado no sonho de consumo de quase todos os apostadores: comprar uma nova casa, um carro novo, viajar, e pronto! Chega! Acho que, em parte, eles até tem razão…
A respeito deste tema: um amigo meu, nos anos 90, faturou uma quantia compensadora na Loteria Esportiva, e foi aconselhado pelo gerente de seu banco a aplicar o prêmio integralmente numa poupança, projetando a transformação daqueles milhares de reais em muitos milhões, em poucos anos.
Consultando-me sobre o conselho recebido, contei-lhe a historinha abaixo.

Certa pessoa, não tendo o que fazer num domingo à tarde, resolveu remexer num baú repleto de trastes, e encontrou uma caderneta de poupança, de propriedade de remotíssimo antepassado seu, contemporâneo de Jesus. Não era necessário ser um emérito historiador ou um Malba Tahan da vida para constatar que se tratava de uma poupança com idade beirando os dois mil anos. O valor aplicado correspondia a uma moedinha pesando um grama de ouro, a juros de 6% ao ano, no Banco Romano, situado em plena Via Ápia.
Procura daqui, procura de lá, descobriu que o tal Banco Romano resistira ao tempo e ainda estava em plena atividade. Contratou um advogado tributarista e pediu-lhe para dar andamento ao caso, ou seja, calcular o montante que teria direito - na condição de legítimo herdeiro - e posteriormente contatar o Banco para receber o que de direito.
Passados alguns dias, o advogado lhe telefonou para dar seu parecer:
- Senhor, a respeito daquela poupança, tenho duas notícias para lhe dar. A primeira: o senhor, em princípio, transformou-se na pessoa mais rica, não só da Terra, mas de toda a Via Láctea. Eu explico: tivemos que alimentar um super computador com os dados disponíveis, e este chegou à conclusão de que a aplicação daquela simples moedinha de um grama, iniciada nos primórdios da era cristã, a juros de 6% ao ano, dobrava seu valor a cada 12 anos aproximadamente - para ser mais preciso, este valor foi dobrando sucessivamente por 167 vezes. No presente momento, o seu crédito equivaleria ao seguinte: o número 1.871 seguido de 41 zeros (!) toneladas (!) de ouro! Contratamos um técnico especializado em  mineração, e este nos apresentou um relatório impressionante, mostrando e provando a inviabilidade do cumprimento deste pagamento, pois seria impossível extrair esta fantástica quantidade de ouro, mesmo que utilizadas todas as minas auríferas do planeta. Continuando, ele explicou o motivo: considerando-se que a Terra pesa 6.586.242.500.000.000.000.000 de toneladas, dividindo-se aquele primeiro número acima - o seu crédito atual (1.871 seguido de 41 zeros toneladas) - pelo peso da terra, vamos encontrar como quociente/resultado o valor de
28.407.600.000.000.000.000.000 (28,4 sextilhões) de globos maciços em ouro, cada um deles do tamanho da Terra. Esta seria a quantidade de ouro que o Banco teria que lhe pagar para que pudesse honrar o depósito do seu antepassado! Neste valor não estão incluidos meus honorários…
O novo sextilionário, ao receber aquela sucessão de notícias - que vocês hão de convir, deve provocar uma bela duma confusão mental, mesmo que momentânea -  ficou estático, lívido, a pressão subiu, baixou, mas ainda teve forças para, quase num sussurro, perguntar:
- E a outra notícia?
Resposta do advogado:
- Ocorre que a inflação, neste período de 2.000 anos, foi quatro vezes superior aos rendimentos. Portanto, o débito para com o Banco Romano, é aquele imenso número que lhe passei, multiplicado por três. E vou lhe avisando: um batalhão de oficiais de justiça já está no seu encalço, tentando cobrar a dívida!

Publicado no jornal O Fenal em outubro/2002 e no Semanário 13 Pontos em 04/agosto/1997

criado por projetosnumericos    0:24 — Arquivado em: Humor, Jogos & Loterias

2 Comentários »

  1. Comentário por Nelson Menda — 8 08UTC março 08UTC 2006 @ 11:39

    Excelente texto, Davi. Sugiro enviá-lo aos jornalistas especializados em economia da grande mídia, como Luiz Nassif, Miriam Leitão ou Joelmir Betig, um de cada vez, para não ferir suscetibilidades. Se não responderem, tente os jornais Valor e Gazeta Mercantil. Se também não responderem, continue publicando esses maravilhosos textos no seu Blog. Outra pergunta: essa imagem de verificação é mesmo indispensável? É uma chatice ter de ficar identificando números e letras nem sempre muito legíveis e onde, muitas, vezes, as letras K e X, assim como o algarismo 1 e a letra l, se confundem. Se vc. puder eliminar essa etapa acredito que vá receber muito mais respostas e comentários. Fica aqui a sugestão. Nelson

  2. Comentário por Luiz Cordioli — 19 19UTC setembro 19UTC 2006 @ 19:35

    Da mesma forma que o colega acima, também é muito chato perdermos um tempão fazendo um comentário fundamentado, revisado, bem trabalhado para, ao final, vê-lo descartado sumariamente porque ultrapassou a cota de caracteres prevista.
    Tenha a santa paciência, que desleixo com seus leitores e colaboradores!
    Custa explicitar o limite, bem à vista ?
    Mudo de praia, enquanto persistir tal fato.
    Boa sorte.

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