Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

6/3/06

No tempo dos dinossauros

Davi Castiel Menda

Vamos dar asas à nossa imaginação e criar um país hipotético, num passado longínquo, de nome LisarB, e povoá-lo com apenas três homens e suas respectivas mulheres:

Antonio - era o curandeiro; José plantava e criava galinhas, alguns porquinhos e outras tantas reses; Luiz, por sua vez, trabalhava com madeira e metal: era o artífice da turma e, se por acaso, em LisarB houvesse eleições um dia, por certo seria eleito o chefe. Os negócios eram realizados na base do escambo, e todos viviam na mais perfeita paz e harmonia. Um belo dia porém, reunidos em torno da fogueira Central, Antonio teve uma idéia:

- E se nós criássemos uma moeda para comprarmos uns dos outros, ao invés de ficar trocando mercadorias?

Da teoria para a prática, foi um zás. Juntaram 3.000 ossinhos, cada um gravou a sua marca, e batizaram a nova moeda com o nome de laer. Não sendo muito bons de linguagem, criaram outra palavra para expressar mais de um laer: siaer. E por lógica, a cada um tocou 1.000 siaer.

Antonio agora cobrava por suas consultas; José comercializava a carne que produzia em siaer e, Luiz, prestava seus serviços profissionais para os seus conterrâneos não mais recebendo mercadorias, e sim ossinhos à guisa de honorários.
E, apesar da mudança, todos continuaram vivendo na mais perfeita paz e harmonia.

Mas como diz o ditado: não há bem que sempre dure… numa determinada noite, mais uma sem ter o que fazer, Luiz, o artesão, moldou dois pedacinhos de madeira -tornando-os semelhantes a dois cubos - pintou alguns pontinhos pretos, e … estava criado o jogo de dados em LisarB! Só para passar o tempo, jogaram algumas horas (a dinheiro!), e deu no que deu: Antonio, que sempre fora um homem de sorte,  ficou com todos os 3.000 siaer que circulavam em LisarB.

Na hora, ninguém deu muita importância para o acontecido mas, no dia seguinte, todos foram surpreendidos com a entrevista coletiva de Antonio, anunciada por sua mulher. A bem da verdade, deve-se registrar que Antonio apareceu com seu melhor traje de folhas de bananeira, comunicando que a partir daquela data, não mais trabalharia como curandeiro, já que se tornara o único capitalista do país, e em conseqüência, viveria de rendas. E, levando em conta e antecipando-se ao fato de que José e Luiz precisariam de capital de giro para movimentar seus negócios, emprestou 1.500 siaer a cada um, a juros simbólicos de 1% ao mês.

Ao final de trinta dias, cada um dos tomadores do empréstimo, devia 1.515 siaer, que somados perfaziam 3.030 siaer! Reunidos, como sempre, em volta da fogueira, Luiz e José perguntaram a Antonio simultaneamente:

- Antonio, se todo o nosso capital circulante é de 3.000 siaer e, decorridos apenas um mês, nós já te devemos 3.030 - e este montante tende a continuar crescendo a cada 30 dias - nós estamos achando que a dívida se tornará impagável. Você não acha que a nossa Economia interna irá para o pântano?!

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Prezado leitor: para que você não se apavore, por favor, não faça a projeção da ficção acima para o país onde você reside, não com apenas três famílias e sim com 170 milhões de habitantes, quase todos eles pagando juros aos bancos, financeiras e cartões de crédito - não de 1% como na historinha - mas malsinados 10% a 15% ao mês!!!

Publicado no Jornal O Fenal (setembro/2002)

criado por projetosnumericos    5:46 — Arquivado em: Humor

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