Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

4/3/06

Setembro, Outubro, Novembro…

Davi Castiel Menda
 
 Local: Restaurante Líder, na esquina da Independência com a Barros Cassal. Data: 1998. Personagens: dez felizardos participantes de um bolão da Loteria Esportiva, que pagou pouco mais de 5 mil reais, rateando 500 reais para cada um dos sócios. A janta comemorativa estava bastante animada, todos alegres, pois não é todo o dia que se consegue ganhar do sistema, da banca, mesmo que o valor abocanhado não tenha sido o suficiente para enriquecer ninguém. O importante é que ganháramos!
Um dos sócios do bolão, pela enésima vez afirmou que, por ter um nome bastante estranho, era o único no mundo a chamar-se Jupi. Foi a deixa para que o assunto descambasse para nomes esquisitos, raros e estranhos. Sendo pessoal ligado a jogo, naturalmente muitos eram turfistas, e logo foi lembrado o jóquei O.Magalhães, que muitos conheciam como Zero Magalhães, mas que na verdade chamava-se Outobrino Magalhães - provavelmente nasceu em outubro e seus pais, em homenagem ao mês, assim o batizaram… Um outro falou do irmão do Outobrino: o S.Magalhães, ou Setembrino Magalhães; três ou quatro lembravam do Setembrino, os outros ou não lembravam ou não conheceram. Segundos depois eu larguei a bomba:
- Mas tinha também outro irmão: o Novembrino Magalhães!!!
Gargalhada geral - ninguém o conhecia! Eu sentindo-me desacreditado e ridicularizado, finquei pé e continuei reafirmando sobre a existência do Novembrino. Existiu, não existiu, discussão para um lado, pra outro, eu cada vez mais ofendido, quando inevitavelmente, pelo perfil lúdico dos participantes, saiu a frase que era de se esperar:
- Quer apostar?
Meu desafiante era um advogado bastante conhecido, culto e inteligente, e afirmava que conhecia a família dos Magalhães e que não havia nenhum Novembrino. Eu, em contra-partida, jurava que além de ter visto o nome do Novembrino impresso no programa oficial do Jockey, mesmo que esporadicamente, já conversara com o próprio uma duas ou três vezes. Afinal, quem teria razão?
A aposta, devidamente casada e com testemunhas, foram os cheques de 500 reais a que cada um tinha direito e, como nos encontraríamos dois dias depois na lotérica para a feitura de um novo bolão, este era o prazo que eu tinha para provar legalmente da existência do Novembrino: 48 horas. Parece título de filme!
No dia seguinte, fui o primeiro a chegar no Jockey Clube. Procurei pelo meu amigo e secretário da sociedade, Nestor Magalhães (mais um Magalhães na história), e lhe expus o problema. Em quinze minutos o cheque estava no papo: saí do Jockey com a ficha xerocada de jóquei do Novembrino, inclusive com a sua foto.
Se vocês pensam que a história terminou por aí, estão redondamente enganados. Seu desfecho é invulgar e talvez um de vocês possa aproveitar o ensinamento.
Na hora aprazada para que eu mostrasse a prova e entrasse na posse dos cheques da aposta (o meu e o do meu desafiante), apresentei orgulhoso o documento, e qual foi a minha surpresa - e dos outros presentes - quando o advogado simplesmente argumentou que estava embargando a aposta, que a mesma não tinha validade, e os cheques deveriam ser devolvidos aos seus respectivos donos?!?! Sua alegação:
- No entendimento "jurídico", uma aposta pressupõe que os dois litigantes tenham as mesmas chances, que esteja presente o princípio da dúvida. Por exemplo: se um gremista e um colorado apostam no resultado de um Grenal, os dois,  teoricamente, tem as mesmas chances de ganhar, já que como dizia o falecido governador Meneghetti - Grenal é Grenal! No presente caso, não foi uma aposta com estas características, já que o meu adversário sabia da existência do Novembrino, ou seja, jogou na certa, o que vai contra toda a legalidade e lisura do conceito daquilo que convencionamos aceitar como aposta - não houve equanimidade. Além do mais, ele sabia de antemão que ganharia porque conhecia a pessoa objeto da questiúncula; portanto, a incerteza não existindo, os pratos da balança da Justiça não estando devidamente equilibrados, legalmente a aposta deve ser cancelada!
 
A pessoa com quem estavam "casados" os cheques, ficou admirando aparvalhado o autor daquela autêntica esparrela, e passados uns cinco segundos, tempo que durou seu estupor, olhando com uma cara debochada (que eu nunca mais vou esquecer) para o meu desafiante, entregou-me solenemente os dois cheques!
 
Isto foi um belíssimo - e inócuo - exemplo de juris esperniandi…
 

 

criado por projetosnumericos    21:27 — Arquivado em: Humor, Jogos & Loterias

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