2/3/06
Aposta Milionária
Davi Castiel Menda
Um dos lotéricos mais antigos, conhecidos e tradicionais de Porto Alegre é o Chico. Figura antológica, bom praça, sempre disposto a colaborar com quer que seja. E é claro, depois de tantos anos atrás do balcão, já vivenciou situações das mais invulgares relacionadas às loterias. Mas a que eu vou relatar a seguir, bate todos os recordes de ineditismo e com final inimaginável, mesmo para aqueles que sempre adivinham o "final do filme"…
Numa daquelas acumuladas da mega sena, com as filas dando a volta no quarteirão, entrou na lotérica do Chico, um morador da vizinhança, o Dr. Maurício, figura conhecidíssima, freqüentador assíduo das crônicas sociais, pessoa muito, mas muito rica mesmo. Mas na lotérica, para surpresa do Chico, era a primeira vez que ele aparecia.
- "Seu Chico preciso de um favor seu (a intimidade já assustou o lotérico - sustos e surrealismo é o que não faltarão no diálogo travado entre os dois). Gostaria de apostar nesta mega sena acumulada, mas pretendo pagar somente daqui a 90 dias - é possível?"
O Chico ficou sem saber o que dizer e o Dr. Maurício, aproveitando a indecisão, continuou:
- "O valor não é muito alto, e faço questão de pagar os juros referentes ao tempo em que o senhor vai me conceder o crédito. Se for necessário, telefono ao meu Banco (diga-se de passagem, o "meu" Banco aí significa que o sujeito detinha 65% das ações de um Banco - ele era o sócio majoritário, o dono do Banco realmente) e eles lhe darão o crédito necessário! "
A estas alturas, o Chico não entendia mais nada. Olhava para os lados, como que pedindo socorro ao primeiro que se candidatasse a prestar o favor. Isto não podia estar acontecendo - logo com ele. Como negar o pedido a uma pessoa daquele gabarito, de família tradicional, possivelmente com crédito ilimitado na praça? E se ele pretendesse apostar uma fortuna, como tudo levava a crer, como explicar ao gerente da Caixa no acerto de contas?! Era uma situação realmente muito, mas muito invulgar. Sem saber o que responder, seguiu o Dr. Maurício com o seu (por enquanto) monólogo:
- "Estou sentindo seu Chico, e com razão, que o senhor está preocupado, pois nem me conhece direito. Vou lhe propor o seguinte: o senhor está vendo aquele automóvel parado em frente à sua lotérica, um Mercedes-Benz do ano, cinza metálico? Aquele com motorista e dois seguranças ao lado? Bem, o carro é meu, a importação foi perfeitamente legal, custou 650.000 dólares, está quitado, com todos os impostos em dia, e os documentos estão aqui comigo. Como eu saí de casa sem o talão de cheques, faço absoluta questão de deixá-lo em garantia até o dia em que eu quitar o joguinho que pretendo fazer."
Se até aquele momento, os alicerces tinham apenas estremecido, agora a casa caiu de vez. Pense bem senhor lotérico, o que você faria nesta situação? Não sabe! Muito menos o pobre do Chico. Vamos acompanhá-lo na sua primeira e única intervenção no diálogo:
- "Dr. Maurício, dependendo do valor que o senhor pretende apostar, eu posso sacar o limite do meu cheque especial, mas o Banco está cobrando 10% ao mês. Como o senhor falou em 90 dias, a juros capitalizados mensalmente, isto representa 33% mais ou menos. E se o senhor faz tanta questão de deixar o carro em garantia, eu o acomodo na garagem que possuo aqui ao lado da lotérica, destinada aos meus clientes."
- "Fechado negócio seu Chico. Não se preocupe com o valor da aposta, o senhor nem vai precisar sacar nada do Banco."
A partir daí as coisas se sucederam numa velocidade espantosa: o Dr. Maurício sacou dois volantezinhos da mega sena do bolso, fez a sua fezinha no valor de R$ 3,00, preencheu um vale que alcançou ao Chico, no valor de R$ 4,00 (capital + juros), entregou-lhe os documentos do carro, mandou o seu motorista estacionar o Mercedes na garagem, despediu-se com um cortês aperto de mãos, e saiu rua afora, já usando o celular, como é de se esperar de todo homem de negócios. Eis o diálogo ao celular:
- "Querida, pode preparar as malas para a nossa viagem à Europa; consegui estacionamento para o nosso carro pelos próximos 90 dias, por somente R$ 4,00 - ah - mais ainda, com este valor ainda estou concorrendo ao sorteio da mega sena acumulada que corre hoje!"
Publicado no jornal O Fenal em junho/2003
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Comentário por David Menda Magrisso — 6 06UTC março 06UTC 2006 @ 14:31
Acho que serei um LVBDA e quero te parabenizar pelo excelente trabalho. Só houve um caso mais inédito no mundo do que a história do Suicida: A vitória do Grêmio na decisão da segundona em 2005.
A propósito
A de LVBDA: AssÃduo