Davi Castiel Menda
A sorte existe! Muitos a encontram na magia do jogo. De qualquer forma, a esperança, o prazer, a sociabilidade durante a espera na fila de uma agência lotérica, insere o apostador na verdadeira confraria que durante aquele instante se estabelece, mesmo entre estranhos reunidos, que nem sequer se falam, mas todos cúmplices e solidários, com o mesmo objetivo: vencer o sistema - ganhar!
Por outro lado, a agência lotérica, a banca (no sentido legal da palavra), do projeto ao funcionamento, precisa ser, ao mesmo nível das mais sólidas instituições: de impecável honestidade. O menor deslize é fatal. Por mais contraditório que possa parecer, é no jogo que vale o caráter, a palavra.
Estes dois primeiros parágrafos, à primeira vista, podem sugerir assuntos totalmente antagônicos, mas ajustam-se com exatidão na apresentação de uma das figuras mais tradicionais do Rio Grande do Sul, considerado o "Papa" dos apostadores, acertador de mais de 20 esportivas, agente lotérico por algum tempo, ou seja, conhecedor dos dois lados: estou falando de Jorge Rolla, hoje com 81 anos. Das pessoas que conheço - e não são poucas - é a mais vibrante ao comentar fatos passados, principalmente pelas suas fantásticas e extraordinárias histórias, geralmente versando sobre suas apostas.
Pois bem, o "Foguinho" - como o Jorge é mais conhecido - na sua juventude, apostava qualquer coisa, qualquer coisa mesmo: resultado de eleições, futebol, corrida de cavalos, previsão do tempo, placas de automóvel, etc, etc. Imagine, hipoteticamente, esta situação invulgar: alguém pretendendo apostar que o Íbis (auto-considerado o pior time de futebol do Brasil) ganharia do Real Madrid (um dos melhores da Espanha), jogando lá em Madri, de 16×0, no primeiro jogo em que se encontrassem - era só procurar o "Foguinho". Ele arbitrava a cotação, tal qual a Bolsa de apostas londrina, e respondia na hora: pago 40.000 por 1 - ou seja, se o Íbis ganhasse do Real Madrid exatamente de 16×0, o apostador receberia R$ 40.000,00; caso contrário o "Foguinho" ganharia R$ 1,00. Resumindo, pura diversão para o apostador, motivado a esta jogada mais pelo fator divertimento do que propriamente pela meteórica relação custo/benefício; mas o "seu" Rolla, encarava a aposta com a maior seriedade possível, preocupando-se até com a remota (remota não, remotíssima!) possibilidade de perder.
É claro que estas apostas esdrúxulas, eram invariavelmente ganhas por ele mas, um dia, "a casa caiu", através de uma aposta inteligente, que merece ser escrita e contada, antes que se perca no tempo. "Foguinho" foi procurado por próspero comerciante, homem de muitas posses, que lhe propôs esta singular situação: pretendia apostar que o sol continuaria a nascer diariamente, durante os próximos 365 dias (nas entrelinhas leia-se: se o sol não nascesse, é porque o fim do mundo teria ocorrido - ponderando-se que à época (1961?), presenciávamos preocupados aos lances da guerra-fria entre EEUU e Rússia, não seria um evento tão inesperado como poderia parecer à primeira vista). Então, qual a cotação para o caso do não nascimento do sol?
Fiel ao lema de não recusar uma aposta e com sua honra de apostador em xeque, "Foguinho" pediu prazo de um dia para dar a resposta, e comentam que até fórmulas e livros de Laplace (um dos pioneiros em cálculo de probabilidades) foram consultados. No dia seguinte, conforme combinado, com um público recorde em volta - quase todos sócios do tradicional Clube do Comércio - informou a cotação, possivelmente considerando os hábitos regulares do sol no passado: a chance dele não nascer é de uma para 2.103.495! Isto significava que, se o sol não nascesse, em qualquer dia do próximo ano, ele receberia do apostador R$ 2.103.495,00 - caso contrário, teria que desembolsar, todos os dias, durante um ano, R$ 1,00.
Passado aquele momento natural que vai da discussão à descontração, em que todos falam com todos ao mesmo tempo, os amigos mais chegados questionaram ao "Foguinho", com a afirmação que o autor da aposta gerara um paradoxo em que somente ele se beneficiava: se o sol continuasse nascendo diariamente, o que era o mais provável, ele, o apostador, receberia R$ 1,00, durante um ano. Caso o fim do mundo tornara-se uma realidade, ou seja, o sol parara de nascer, o apostador, teoricamente, teria que pagar mais de dois milhões, que o "Foguinho" nem chegaria a receber. Qual a vantagem? Só se os compromissos financeiros (inclusive apostas) assumidos aqui na terra tivessem que ser cumpridos na eternidade…
Saboreiem a genial resposta do "seu" Rolla:
- Em primeiro lugar, se eu recusasse esta aposta, aquilo pelo qual eu lutei durante toda a vida - a seriedade, a palavra - cairia por terra e eu nunca mais poderia pensar em apostar, sequer grãos de feijão; em segundo lugar, espero pagar com a maior satisfação R$ 1,00 diariamente, sinal que eu e todos nós conseguimos ultrapassar a barreira de mais um dia, vivos; mas se o impensável acontecer, tenho certeza que pelo menos no último milionésimo de segundo antes do fim do mundo ocorrer, eu ainda terei tempo para pensar, e por que não, vibrar: ganhei dois milhões!
Bibliografia:
Curso de Arquitetura e Urbanismo - Ulbra -Trabalho de Conclusão - 1991 - Sérgio Krepsky
Introdução à teoria das probabilidades e suas aplicações - 1976 - William Feller
Texto publicado no jornal O Fenal em março/2003