Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

29/3/06

Humor (?) no Bonfim - 50 anos

Davi Castiel Menda

Baseado em fatos reais

Correspondência enviada ao Correio do Povo de Porto Alegre - Coluna do Leitor e publicada em abril de 1956

Um apelo à Colônia Israelita:
A laboriosa colônia israelita, na sua maioria, habita a Avenida Osvaldo Aranha e as suas ruas transversais. Estende-se mesmo até a Protásio Alves e circunvizinhanças. É uma zona comercial próspera que promete desenvolver-se cada vez mais. Entretanto, há sensível falta de transportes. São muito utilizados pelos moradores daquela zona os bondes Gasômetro e Petrópolis que trafegam repletos de passageiros. É uma lástima. Podia-se resolver essa apremiante situação se a colônia israelita organizasse uma Empresa de ônibus de transporte para aquela zona. Temos o belíssimo exemplo da firma Renner que, facilitando os seus operários, às suas famílias e os moradores de Navegantes, São João, Caminho Novo e arredores, organizou as suas linhas de ônibus, que tão relevantes serviços presta à população. Aí deixamos o nosso apelo. Atenciosamente. (ass.) OR.

Resposta publicada em 14 de maio de 1956 no mesmo jornal

Senhor Redator:
O Sr. OR dirigiu uma carta a este matutino, fazendo um apelo à colônia israelita. Essa carta, pelo humorismo que encerra, deveria ser publicada no Bric-a-brac (*) e não na Coluna do Leitor. Sugere o Sr. OR, naturalmente fatigado de tanto viajar de pé nos bondes e ônibus, que a colônia israelita organize uma empresa de transportes e deixe de ocupar o lugar dos outros nos coletivos existentes na capital. Evidentemente, o Sr. OR tem vocação para Diretor de Trânsito, pois em meia dúzia de linhas, resolveu todo o problema de transportes da Capital. Lamentavelmente, não adianta ele se, dados os bons resultados que prevê para seu plano, pretende aplicá-lo também para outros núcleos, assim, futuramente, poderemos ter empresas de ônibus para italianos, alemães, poloneses, japoneses, etc. Seria interessante mesmo que cada um desses ônibus tivesse à frente uma bandeirinha dos respectivos países, para maior facilidade na sua identificação. Naturalmente, o motorista e o trocador deveriam falar o idioma respectivo, correspondente à nacionalidade a que o ônibus viria servir. Depois de completo o serviço todo, isto é, fundadas todas essas empresas, o que restaria para nós, os brasileiros? Simplesmente os desmantelados ônibus da Carris! De onde se conclui que o plano do Sr. OR, se por um lado tem suas vantagens, por outro lado tem um sentido anti-patriótico.
Cordialmente (ass) Aron Menda (**)

(*) Bric-a-Brac - seção de humorismo e variedades do jornal Correio do Povo.
(**) Aron Menda - pai do blogueiro.

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16/3/06

Por favor, nos ajudem!

Davi Castiel Menda

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Prezado editor do Al-Karismi:


Lendo alguns artigos do seu blog, notei que a área de vocês é matemática, além de loterias, e por este motivo estou pedindo auxílio a vocês. Somos três irmãos. Todas as semanas nos cotizamos e fazemos um bolãozinho na mega sena. Na verdade, somos quatro irmãos, mas o mais novo não aposta, só quer saber de estudar (matemática ainda por cima - é o geniozinho da família),
No mês passado, após anos de tentativas mal-sucedidas, finalmente acertamos uma quina da mega sena, faturando exatamente R$ 7.100,00. Desculpe-me senhor editor, mas eu estou tão nervoso com a dúvida que nos atormenta - a mim e meus irmãos - que vou lembrando o problema aos poucos: esqueci de dizer-lhe que no nosso bolão, apostamos quantias diferentes - eu, por ser o mais abonado, sempre entro com a metade; outro dos irmãos joga um terço da aposta e o último entra somente com um nono - e o combinado, no caso de premiação, é dividir proporcionalmente ao que cada um jogou. No meu entendimento, o procedimento mais razoável e justo.
Continuando: dirigi-me a uma agência da Caixa para receber o prêmio, e quis o destino que o valor fosse pago unicamente em notas de R$ 100,00. Na hora da divisão, foi aquela briga:
- eu, por ter direito a metade, teria que receber R$ 3.550,00 - e só havia notas de R$ 100,00;
- o segundo irmão, cotista com 1/3, tinha direito a exatos R$ 2.366,66 - e só havia notas de R$ 100,00;
- e por fim, ao último, que entrara com 1/9, lhe caberia R$ 788,88 - e só havia notas de R$ 100,00.
É evidente que, se esperássemos até o dia seguinte, trocaríamos o dinheiro e eu não estaria lhe dando todo esse trabalho, mas nós queríamos concluir a divisão naquele dia, naquele momento, e qualquer proposta apresentada por um de nós era rechaçada incotinenti pelos outros dois.
Pois bem, foi nesse exato momento que o Malbinha (o nosso irmão mais novo, o matemático - aquele que não aposta) entrou em cena, propondo acrescentar ao nosso prêmio mais uma nota de R$ 100,00 - que ele pediu emprestado à mãe! Se nós concordássemos, o valor do prêmio passaria a ser de R$ 7.200,00, quantia que é divisível por dois, três e nove. Tudo bem, mesmo o Malbinha (e por tabela, a mãe) ficando no prejuízo, resolvemos aceitar a sua sugestão e o nomeamos na hora o responsável pela divisão. Voltando-se para mim, disse o Malbinha:
- Tinhas direito à metade - R$ 3.550,00; pelo valor atual estás agora recebendo R$ 3.600,00 e acredito que não tenhas nada a reclamar, já que saíste lucrando na divisão.
Ao segundo irmão:
- Tua participação no bolão foi de 1/3 e terias direito a pouco mais de dois mil e trezentos reais. Agora, com a nota que acrescentei, vais receber R$ 2.400,00, também tiveste lucro na transação, e espero que não reclames futuramente.
O terceiro irmão, sentindo que ia sobrar pra ele, já se preparava para reclamar, mas o Malbinha foi mais rápido:
- E a ti, que cabe a nona parte: terias direito a R$ 788.88 - mas vais embolsar pelo novo valor 1/9 de R$ 7.200,00, o que totaliza R$ 800,00 - só tens a agradecer pela minha idéia.
Todos nós ficamos satisfeitíssimos com a engenhosidade do nosso irmão caçula, contentando a todos, mas a grande surpresa estava por vir, pois o nosso irmão matemático encerrou desta forma:
- Bem, meus manos, concluído o rateio proporcional, e tendo todos lucrado, notem que a soma das parcelas por vocês recebida (R$ 3.600,00 + R$ 2.400,00 +  R$ 800,00) corresponde a exatos R$ 6.800,00. Restam ainda R$ 400,00 em caixa. Estou devolvendo os R$ 100,00 que a mãe me emprestou para "aumentar" o prêmio e, por ter contentado a todos vocês, estou embolsando a título de honorários os R$ 300,00 que sobraram!

Por favor senhor editor, peço-lhe mais uma vez encarecidamente que publique essa nossa carta, e torcemos desesperadamente para que alguém responda, informando como foi possível o Malbinha (o nosso irmão caçula, eu já devo ter dito antes), nos ter passado a perna, pois não suportamos mais aquele ar zombeteiro que ficou permanentemente estampado no seu rosto desde o dia da divisão.

Um leitor angustiado.
PS: e seus dois irmãos,

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8/3/06

Poupança sextilionária

Davi Castiel Menda

Uma boa parcela de conhecidos meus, apostadores bissextos em loterias, fica apavorada só de imaginar a possibilidade de ganhar um prêmio multibilionário. Alegam estes novos-pseudo-milionários que não saberiam como administrar uma imensa fortuna obtida inopinadamente, e que esta situação só atrapalharia seus planos, que normalmente obedecem a um padrão fixo e determinado no sonho de consumo de quase todos os apostadores: comprar uma nova casa, um carro novo, viajar, e pronto! Chega! Acho que, em parte, eles até tem razão…
A respeito deste tema: um amigo meu, nos anos 90, faturou uma quantia compensadora na Loteria Esportiva, e foi aconselhado pelo gerente de seu banco a aplicar o prêmio integralmente numa poupança, projetando a transformação daqueles milhares de reais em muitos milhões, em poucos anos.
Consultando-me sobre o conselho recebido, contei-lhe a historinha abaixo.

Certa pessoa, não tendo o que fazer num domingo à tarde, resolveu remexer num baú repleto de trastes, e encontrou uma caderneta de poupança, de propriedade de remotíssimo antepassado seu, contemporâneo de Jesus. Não era necessário ser um emérito historiador ou um Malba Tahan da vida para constatar que se tratava de uma poupança com idade beirando os dois mil anos. O valor aplicado correspondia a uma moedinha pesando um grama de ouro, a juros de 6% ao ano, no Banco Romano, situado em plena Via Ápia.
Procura daqui, procura de lá, descobriu que o tal Banco Romano resistira ao tempo e ainda estava em plena atividade. Contratou um advogado tributarista e pediu-lhe para dar andamento ao caso, ou seja, calcular o montante que teria direito - na condição de legítimo herdeiro - e posteriormente contatar o Banco para receber o que de direito.
Passados alguns dias, o advogado lhe telefonou para dar seu parecer:
- Senhor, a respeito daquela poupança, tenho duas notícias para lhe dar. A primeira: o senhor, em princípio, transformou-se na pessoa mais rica, não só da Terra, mas de toda a Via Láctea. Eu explico: tivemos que alimentar um super computador com os dados disponíveis, e este chegou à conclusão de que a aplicação daquela simples moedinha de um grama, iniciada nos primórdios da era cristã, a juros de 6% ao ano, dobrava seu valor a cada 12 anos aproximadamente - para ser mais preciso, este valor foi dobrando sucessivamente por 167 vezes. No presente momento, o seu crédito equivaleria ao seguinte: o número 1.871 seguido de 41 zeros (!) toneladas (!) de ouro! Contratamos um técnico especializado em  mineração, e este nos apresentou um relatório impressionante, mostrando e provando a inviabilidade do cumprimento deste pagamento, pois seria impossível extrair esta fantástica quantidade de ouro, mesmo que utilizadas todas as minas auríferas do planeta. Continuando, ele explicou o motivo: considerando-se que a Terra pesa 6.586.242.500.000.000.000.000 de toneladas, dividindo-se aquele primeiro número acima - o seu crédito atual (1.871 seguido de 41 zeros toneladas) - pelo peso da terra, vamos encontrar como quociente/resultado o valor de
28.407.600.000.000.000.000.000 (28,4 sextilhões) de globos maciços em ouro, cada um deles do tamanho da Terra. Esta seria a quantidade de ouro que o Banco teria que lhe pagar para que pudesse honrar o depósito do seu antepassado! Neste valor não estão incluidos meus honorários…
O novo sextilionário, ao receber aquela sucessão de notícias - que vocês hão de convir, deve provocar uma bela duma confusão mental, mesmo que momentânea -  ficou estático, lívido, a pressão subiu, baixou, mas ainda teve forças para, quase num sussurro, perguntar:
- E a outra notícia?
Resposta do advogado:
- Ocorre que a inflação, neste período de 2.000 anos, foi quatro vezes superior aos rendimentos. Portanto, o débito para com o Banco Romano, é aquele imenso número que lhe passei, multiplicado por três. E vou lhe avisando: um batalhão de oficiais de justiça já está no seu encalço, tentando cobrar a dívida!

Publicado no jornal O Fenal em outubro/2002 e no Semanário 13 Pontos em 04/agosto/1997

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6/3/06

No tempo dos dinossauros

Davi Castiel Menda

Vamos dar asas à nossa imaginação e criar um país hipotético, num passado longínquo, de nome LisarB, e povoá-lo com apenas três homens e suas respectivas mulheres:

Antonio - era o curandeiro; José plantava e criava galinhas, alguns porquinhos e outras tantas reses; Luiz, por sua vez, trabalhava com madeira e metal: era o artífice da turma e, se por acaso, em LisarB houvesse eleições um dia, por certo seria eleito o chefe. Os negócios eram realizados na base do escambo, e todos viviam na mais perfeita paz e harmonia. Um belo dia porém, reunidos em torno da fogueira Central, Antonio teve uma idéia:

- E se nós criássemos uma moeda para comprarmos uns dos outros, ao invés de ficar trocando mercadorias?

Da teoria para a prática, foi um zás. Juntaram 3.000 ossinhos, cada um gravou a sua marca, e batizaram a nova moeda com o nome de laer. Não sendo muito bons de linguagem, criaram outra palavra para expressar mais de um laer: siaer. E por lógica, a cada um tocou 1.000 siaer.

Antonio agora cobrava por suas consultas; José comercializava a carne que produzia em siaer e, Luiz, prestava seus serviços profissionais para os seus conterrâneos não mais recebendo mercadorias, e sim ossinhos à guisa de honorários.
E, apesar da mudança, todos continuaram vivendo na mais perfeita paz e harmonia.

Mas como diz o ditado: não há bem que sempre dure… numa determinada noite, mais uma sem ter o que fazer, Luiz, o artesão, moldou dois pedacinhos de madeira -tornando-os semelhantes a dois cubos - pintou alguns pontinhos pretos, e … estava criado o jogo de dados em LisarB! Só para passar o tempo, jogaram algumas horas (a dinheiro!), e deu no que deu: Antonio, que sempre fora um homem de sorte,  ficou com todos os 3.000 siaer que circulavam em LisarB.

Na hora, ninguém deu muita importância para o acontecido mas, no dia seguinte, todos foram surpreendidos com a entrevista coletiva de Antonio, anunciada por sua mulher. A bem da verdade, deve-se registrar que Antonio apareceu com seu melhor traje de folhas de bananeira, comunicando que a partir daquela data, não mais trabalharia como curandeiro, já que se tornara o único capitalista do país, e em conseqüência, viveria de rendas. E, levando em conta e antecipando-se ao fato de que José e Luiz precisariam de capital de giro para movimentar seus negócios, emprestou 1.500 siaer a cada um, a juros simbólicos de 1% ao mês.

Ao final de trinta dias, cada um dos tomadores do empréstimo, devia 1.515 siaer, que somados perfaziam 3.030 siaer! Reunidos, como sempre, em volta da fogueira, Luiz e José perguntaram a Antonio simultaneamente:

- Antonio, se todo o nosso capital circulante é de 3.000 siaer e, decorridos apenas um mês, nós já te devemos 3.030 - e este montante tende a continuar crescendo a cada 30 dias - nós estamos achando que a dívida se tornará impagável. Você não acha que a nossa Economia interna irá para o pântano?!

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Prezado leitor: para que você não se apavore, por favor, não faça a projeção da ficção acima para o país onde você reside, não com apenas três famílias e sim com 170 milhões de habitantes, quase todos eles pagando juros aos bancos, financeiras e cartões de crédito - não de 1% como na historinha - mas malsinados 10% a 15% ao mês!!!

Publicado no Jornal O Fenal (setembro/2002)

criado por projetosnumericos    5:46 — Arquivado em: Humor

5/3/06

Salário Mínimo X Mensalão

Davi Castiel Menda

Ponha-se na pele de um trabalhador que ganhe um salário mínimo por mês: R$ 300,00, um valor que é percebido por milhões de pessoas (que não obedeceram à sugestão do Gen. Figueiredo). Imagine-se levantando todos os dias, de madrugada, provavelmente após uma noite maldormida, com o estômago não tão satisfeito, como você, leitor, gostaria (lembre-se, você está na pele do trabalhador). Faça chuva, sol, tempestade ou ciclone extratropical, você vai até a parada, que é claro, já está repleta de trabalhadores como você, aguarda uma eternidade pela vinda de um ônibus que já chegará lotado e, se o motorista porventura se dignar a parar, você será literalmente carregado, esmagado, sentindo-se enlatado e entalado, até o seu trabalho. Isto se você já não vendeu seus vales-transportes (compro vale, vendo vale…), pois neste caso, terá que cumprir diariamente estes quilômetros valentemente a pé…
Certamente, por ser trabalhador de salário mínimo, presumo que você não seja o chefe e, conseqüentemente, ficará na integralidade do tempo sendo mandado por alguém. Dia após dia, semana após semana, meses, anos. Mais precisamente, nove anos - este o tempo que arbitramos para a duração da nossa historinha. Nem pretendo intrometer-me na sua vida familiar, pois se você é casado e tem filhos, sabe como é difícil manter uma casa com R$ 300,00 mensais; aliás, nem é trezentos, lembre-se dos descontos! Mas para arredondar as contas, vamos deixar momentaneamente por trezentos mesmo: são dez reais por dia! Se for você, mulher e dois filhos, você disporá de R$ 2,50 por dia/pessoa para manutenção da família - alimentação, higiene, saúde, medicamentos, roupas, material escolar e tudo aquilo que a vida moderna nos oferece alegremente através da mídia: tevê a cabo com telas cinemascópicas, celulares com tantos opcionais que até telefone têm, carros em 60 pagamentos, etc.
Nove longos anos da sua vida… E sabe quanto você ganhou em todo este tempo? Use a maquininha e você chegará ao valor de R$ 32.400,00 - menos os descontos devidos ao Instituto e outros, arredonde para R$ 30.000,00. Nove anos, uma existência, e você ganhou 30 mil; sou capaz de apostar que você não poupou um mísero tostão desta fortuna toda… Você precisou de nove longos anos para receber 30 mil reais e só os teria amealhado integralmente se durante todo esse tempo não se alimentasse, não precisasse adquirir roupas, não ficasse doente, não fosse a uma partida de futebol, não tomasse uma cerveja, não festejasse o aniversário de um filho, não fizesse uma mísera fezinha na mega sena acumulada.
Você deve estar se perguntando, afinal, todo este rodeio aonde vai chegar?
E eu respondo: você literalmente gastou, perdeu nove anos de sua vida e da sua família, para receber o que um deputado "abocanhava" de gorjeta num único mês, seja a título de mensalão, contribuição, caixa dois, dinheiro não-contabilizado ou o raio-que-o-parta!!!

criado por projetosnumericos    7:59 — Arquivado em: Opinião, Política

4/3/06

Pirâmide

Davi Castiel Menda

Nos últimos dias recebi uns 10 e-mails com fórmulas milagrosas para ganhar (muito, mas muito) dinheiro, através das já conhecidíssimas, surradas e batidas correntes-pirâmides, prometendo me salvar de todas as minhas dívidas e, além disto, ficar milionário. Tudo isto mediante a módica quantia de  R$ 10,00.
 
Só por curiosidade, vamos praticar um exercício de imaginação e simular o seguinte: moro num prédio de 16 andares (já que é simulação mesmo, na cobertura!), e recebi a tal corrente. Enviei R$ 10,00 para o primeiro da lista (são somente sete pessoas na tal lista), eliminei o primeiro, coloquei meu nome em último e enviei para sete pessoas, inclusive para o meu vizinho do 15o. andar. A minha lista original se transformou em sete "filhotes".
Meu vizinho do 15o., além dos outros seis que receberam minhas cópias, usando o mesmo procedimento,  enviaram cada um para novas 7 pessoas, inclusive para o nosso vizinho do 14o. andar - são 49 "netinhos" circulando por aí.
A partir de agora procuraremos economizar frases, já que a rotina é mais do que conhecida - vamos "falar exclusivamente em matemática" e mostrar a evolução da corrente/pirâmide:
16o. andar - 1 -recebi a corrente
15o. andar - 7 cartas circulando por aí
14o. andar - 49 
13o. andar - 343
12o. andar - 2.401
11o. andar - 16.807
10o. andar - 117.649
  9o. andar - 823.543
  8o. andar - 5.764.801
  7o. andar - 40.353.607
  6o. andar - 282.475.249
  5o. andar - 1.977.326.743
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  4o. andar - 13.841.287.201 - opa! a lista nem chegou à portaria e já atingiu praticamente o dobro da população da terra!! Vamos ter que começar a procurar ET`s de Marte, Vênus, selenitas, etc.
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  3o. andar - 96.889.010.407
  2o.andar - 678.223.072.849 - esgotados os habitantes do sistema solar. Rumo à via-láctea!
  1o. andar - 4.747.561.509.943
  Térreo      - 33.232.930.569.601 - se cada um dos correntistas demorasse apenas um dia para passar as suas sete cartinhas, no 17o. dia (menos de um mês), trinta e três trilhões, duzentos e trinta e dois bilhões, novecentos e trinta milhões, quinhentos e sessenta e nove mil, seiscentos e um habitantes do Universo teriam participado da nossa (utópica) corrente. E todos ficariam milionários. Haja dinheiro…

criado por projetosnumericos    21:44 — Arquivado em: Humor, Jogos & Loterias

Setembro, Outubro, Novembro…

Davi Castiel Menda
 
 Local: Restaurante Líder, na esquina da Independência com a Barros Cassal. Data: 1998. Personagens: dez felizardos participantes de um bolão da Loteria Esportiva, que pagou pouco mais de 5 mil reais, rateando 500 reais para cada um dos sócios. A janta comemorativa estava bastante animada, todos alegres, pois não é todo o dia que se consegue ganhar do sistema, da banca, mesmo que o valor abocanhado não tenha sido o suficiente para enriquecer ninguém. O importante é que ganháramos!
Um dos sócios do bolão, pela enésima vez afirmou que, por ter um nome bastante estranho, era o único no mundo a chamar-se Jupi. Foi a deixa para que o assunto descambasse para nomes esquisitos, raros e estranhos. Sendo pessoal ligado a jogo, naturalmente muitos eram turfistas, e logo foi lembrado o jóquei O.Magalhães, que muitos conheciam como Zero Magalhães, mas que na verdade chamava-se Outobrino Magalhães - provavelmente nasceu em outubro e seus pais, em homenagem ao mês, assim o batizaram… Um outro falou do irmão do Outobrino: o S.Magalhães, ou Setembrino Magalhães; três ou quatro lembravam do Setembrino, os outros ou não lembravam ou não conheceram. Segundos depois eu larguei a bomba:
- Mas tinha também outro irmão: o Novembrino Magalhães!!!
Gargalhada geral - ninguém o conhecia! Eu sentindo-me desacreditado e ridicularizado, finquei pé e continuei reafirmando sobre a existência do Novembrino. Existiu, não existiu, discussão para um lado, pra outro, eu cada vez mais ofendido, quando inevitavelmente, pelo perfil lúdico dos participantes, saiu a frase que era de se esperar:
- Quer apostar?
Meu desafiante era um advogado bastante conhecido, culto e inteligente, e afirmava que conhecia a família dos Magalhães e que não havia nenhum Novembrino. Eu, em contra-partida, jurava que além de ter visto o nome do Novembrino impresso no programa oficial do Jockey, mesmo que esporadicamente, já conversara com o próprio uma duas ou três vezes. Afinal, quem teria razão?
A aposta, devidamente casada e com testemunhas, foram os cheques de 500 reais a que cada um tinha direito e, como nos encontraríamos dois dias depois na lotérica para a feitura de um novo bolão, este era o prazo que eu tinha para provar legalmente da existência do Novembrino: 48 horas. Parece título de filme!
No dia seguinte, fui o primeiro a chegar no Jockey Clube. Procurei pelo meu amigo e secretário da sociedade, Nestor Magalhães (mais um Magalhães na história), e lhe expus o problema. Em quinze minutos o cheque estava no papo: saí do Jockey com a ficha xerocada de jóquei do Novembrino, inclusive com a sua foto.
Se vocês pensam que a história terminou por aí, estão redondamente enganados. Seu desfecho é invulgar e talvez um de vocês possa aproveitar o ensinamento.
Na hora aprazada para que eu mostrasse a prova e entrasse na posse dos cheques da aposta (o meu e o do meu desafiante), apresentei orgulhoso o documento, e qual foi a minha surpresa - e dos outros presentes - quando o advogado simplesmente argumentou que estava embargando a aposta, que a mesma não tinha validade, e os cheques deveriam ser devolvidos aos seus respectivos donos?!?! Sua alegação:
- No entendimento "jurídico", uma aposta pressupõe que os dois litigantes tenham as mesmas chances, que esteja presente o princípio da dúvida. Por exemplo: se um gremista e um colorado apostam no resultado de um Grenal, os dois,  teoricamente, tem as mesmas chances de ganhar, já que como dizia o falecido governador Meneghetti - Grenal é Grenal! No presente caso, não foi uma aposta com estas características, já que o meu adversário sabia da existência do Novembrino, ou seja, jogou na certa, o que vai contra toda a legalidade e lisura do conceito daquilo que convencionamos aceitar como aposta - não houve equanimidade. Além do mais, ele sabia de antemão que ganharia porque conhecia a pessoa objeto da questiúncula; portanto, a incerteza não existindo, os pratos da balança da Justiça não estando devidamente equilibrados, legalmente a aposta deve ser cancelada!
 
A pessoa com quem estavam "casados" os cheques, ficou admirando aparvalhado o autor daquela autêntica esparrela, e passados uns cinco segundos, tempo que durou seu estupor, olhando com uma cara debochada (que eu nunca mais vou esquecer) para o meu desafiante, entregou-me solenemente os dois cheques!
 
Isto foi um belíssimo - e inócuo - exemplo de juris esperniandi…
 

 

criado por projetosnumericos    21:27 — Arquivado em: Humor, Jogos & Loterias

3/3/06

Todos nós somos apostadores natos

Davi Castiel Menda

Se você se julga um azarado, está redondamente enganado! É evidente que você não lembra, mas nove meses antes de nascer, você ganhou a loteria mais difícil do Universo: um pequeno espermatozóide, aquele que lhe deu origem, venceu, numa corrida titânica, outros milhões e milhões de espermatozoidezinhos. Aliás, diga-se de passagem, uma corrida fratricida, já que o vencedor (no caso, você), aí está lendo este artigo, enquanto os demais… Meus parabéns, você é um vencedor e, um jogador!

Eu sei, alguns de vocês que estão lendo, podem achar um exagero, que não são jogadores, que nunca apostaram nem um feijãozinho em bingo. Duvido…

Vislumbro você, pequeninho, de calças curtas, com suas bolinhas de gude compradas no armazém da esquina; e o que você fazia com elas ? Ia tentar ganhar mais algumas do seu primo, irmão ou vizinho. Lembra do Rapa, Tira, Deixa e Bota ? É claro que lembra! E os álbuns e figurinhas que você pedia, chorava para seu pai comprar? "Aposto que agora, neste pacotinho, vem aquela figurinha difícil que vale uma bicicleta". O que? Você não fez nada disto - então - desculpe-me, mas você não teve infância.

O telefone tocou. Atenda, atenda, eu aguardo. O que? Roubaram seu carro? Zerinho? Não se preocupe, já sei, no início do ano, você apostou com a seguradora que roubariam seu carro e ela apostou que não. Desta vez você ganhou…

E seu primeiro emprego? Você tomou um banho caprichado, vestiu sua melhor roupa e chegou na ante-sala do entrevistador "pisando em ovos". Olhou para os concorrentes e apostou (mentalmente) que era melhor que todos. Pode ficar certo que o chefe do Departamento Pessoal tinha os mesmos, ou mais,  problemas que você, ao escolhê-lo: ele apostou que você era o indicado para o cargo (e se não fosse, teria que se haver com o dono da Empresa).

E o casamento? A senhora tinha dois, três partidos e apostou naquele que achava o melhor. Acertou! Congratulações. Las Vegas e suas mesas de roleta lhe esperam, pois você é uma mulher de sorte.

E Vossa Excelência, ilustre Deputado que votou contra a abertura dos Cassinos no País!  Quando se candidatou, não fez uma aposta consigo mesmo que se elegeria? Já pensou o que aconteceria se não tivesse sido? Quitar as gráficas e os cabos eleitorais sem receber seus vencimentos mensais? Menos mal que você foi eleito. Ah, não esqueça dos pobres eleitores, que também apostaram num bom desempenho seu na Câmara.

Não, não adianta ficar sorrindo senhor Padre, e achar que você, por usar uma batina, não está incluído no rol dos jogadores. O senhor se autopropôs uma das apostas mais difíceis: jogou contra a natureza. Apostou que nunca, nunca, iria praticar sexo durante a sua vida. Foi uma aposta terrível, eu sei. Enfim…

Mas não se preocupem, afinal, todos vocês são mortais e falíveis. Pior foi Ele, que vem apostando em 6 bilhões de pessoas. E está perdendo…

Publicado no site Proa da Palavra

criado por projetosnumericos    5:40 — Arquivado em: Humor

2/3/06

Bolsa de apostas à brasileira

Davi Castiel Menda

A sorte existe! Muitos a encontram na magia do jogo. De qualquer forma, a esperança, o prazer, a sociabilidade durante a espera na fila de uma agência lotérica, insere o apostador na verdadeira confraria que durante aquele instante se estabelece, mesmo entre estranhos reunidos, que nem sequer se falam, mas todos cúmplices e solidários, com o mesmo objetivo: vencer o sistema - ganhar!

Por outro lado, a agência lotérica, a banca (no sentido legal da palavra), do projeto ao funcionamento, precisa ser, ao mesmo nível das mais sólidas instituições: de impecável honestidade. O menor deslize é fatal. Por mais contraditório que possa parecer, é no jogo que vale o caráter, a palavra.

Estes dois primeiros parágrafos, à primeira vista, podem sugerir assuntos totalmente antagônicos, mas ajustam-se com exatidão na apresentação de uma das figuras mais tradicionais do Rio Grande do Sul, considerado o "Papa" dos apostadores, acertador de mais de 20 esportivas, agente lotérico por algum tempo, ou seja, conhecedor dos dois lados: estou falando de Jorge Rolla, hoje com 81 anos. Das pessoas que conheço - e não são poucas - é a mais vibrante ao comentar fatos passados, principalmente pelas suas fantásticas e extraordinárias histórias, geralmente versando  sobre suas apostas.

Pois bem,  o "Foguinho" - como o Jorge é mais conhecido - na sua juventude, apostava qualquer coisa, qualquer coisa mesmo: resultado de eleições, futebol, corrida de cavalos, previsão do tempo, placas de automóvel, etc, etc. Imagine, hipoteticamente, esta situação invulgar: alguém pretendendo apostar que o Íbis (auto-considerado o pior time de futebol do Brasil) ganharia do Real Madrid (um dos melhores da Espanha), jogando lá em Madri, de 16×0, no primeiro jogo em que se encontrassem - era só procurar o "Foguinho". Ele arbitrava a cotação, tal qual a Bolsa de apostas londrina, e respondia na hora: pago 40.000 por 1 - ou seja, se o Íbis ganhasse do Real Madrid exatamente de 16×0, o apostador receberia R$ 40.000,00; caso contrário o "Foguinho" ganharia R$ 1,00. Resumindo, pura diversão para o apostador, motivado a esta jogada mais pelo fator divertimento do que propriamente pela meteórica relação custo/benefício; mas o "seu" Rolla, encarava a aposta com a maior seriedade possível, preocupando-se até com a remota (remota não, remotíssima!) possibilidade de perder.

É claro que estas apostas esdrúxulas, eram invariavelmente ganhas por ele mas, um dia, "a casa caiu", através de uma aposta inteligente, que merece ser escrita e contada, antes que se perca no tempo. "Foguinho" foi procurado por próspero comerciante, homem de muitas posses, que lhe propôs esta singular situação: pretendia apostar que o sol continuaria a nascer diariamente, durante os próximos 365 dias (nas entrelinhas leia-se: se o sol não nascesse, é porque o fim do mundo teria ocorrido - ponderando-se que à época (1961?), presenciávamos preocupados aos lances da guerra-fria entre EEUU e Rússia, não seria um evento tão inesperado como poderia parecer à primeira vista). Então, qual a cotação para o caso do não nascimento do sol?

Fiel ao lema de não recusar uma aposta e com sua honra de apostador em xeque,  "Foguinho" pediu prazo de um dia para dar a resposta, e comentam que até fórmulas e livros de Laplace (um dos pioneiros em cálculo de probabilidades) foram consultados. No dia seguinte, conforme combinado, com um público recorde em volta - quase todos sócios do tradicional Clube do Comércio - informou a cotação, possivelmente considerando os hábitos regulares do sol no passado: a chance dele não nascer é de uma para 2.103.495! Isto significava que, se o sol não nascesse, em qualquer dia do próximo ano, ele receberia do apostador R$ 2.103.495,00 - caso contrário, teria que desembolsar, todos os dias, durante um ano, R$ 1,00.

Passado aquele momento natural que vai da discussão à descontração, em que todos falam com todos ao mesmo tempo, os amigos mais chegados questionaram ao "Foguinho", com a afirmação que o autor da aposta gerara um paradoxo em que somente ele se beneficiava: se o sol continuasse nascendo diariamente, o que era o mais provável, ele, o apostador, receberia R$ 1,00, durante um ano. Caso o fim do mundo tornara-se uma realidade, ou seja, o sol parara de nascer, o apostador, teoricamente, teria que pagar mais de dois milhões, que o "Foguinho" nem chegaria a receber. Qual a vantagem? Só se os compromissos financeiros (inclusive apostas) assumidos aqui na terra tivessem que ser cumpridos na eternidade…

Saboreiem a genial resposta do "seu" Rolla:
- Em primeiro lugar, se eu recusasse esta aposta, aquilo pelo qual eu lutei durante toda a vida - a seriedade, a palavra - cairia por terra e eu nunca mais poderia pensar em apostar, sequer grãos de feijão; em segundo lugar, espero pagar com a maior satisfação R$ 1,00 diariamente, sinal que eu e todos nós conseguimos ultrapassar a barreira de mais um dia, vivos; mas se o impensável acontecer, tenho certeza que pelo menos no último milionésimo de segundo antes do fim do mundo ocorrer, eu ainda terei tempo para pensar, e por que não, vibrar: ganhei dois milhões!

Bibliografia:
Curso de Arquitetura e Urbanismo - Ulbra -Trabalho de Conclusão - 1991 - Sérgio Krepsky
Introdução à teoria das probabilidades e suas aplicações - 1976 - William Feller

Texto publicado no jornal O Fenal em março/2003

 

criado por projetosnumericos    21:27 — Arquivado em: Humor, Jogos & Loterias

Aposta Milionária

Davi Castiel Menda

Um dos lotéricos mais antigos, conhecidos e tradicionais de Porto Alegre é o Chico. Figura antológica, bom praça, sempre disposto a colaborar com quer que seja. E é claro, depois de tantos anos atrás do balcão, já vivenciou situações das mais invulgares relacionadas às loterias. Mas a que eu vou relatar a seguir, bate todos os recordes de ineditismo e com final inimaginável, mesmo para aqueles que sempre adivinham o "final do filme"…

Numa daquelas acumuladas da mega sena, com as filas dando a volta no quarteirão, entrou na lotérica do Chico, um morador da vizinhança, o Dr. Maurício, figura conhecidíssima, freqüentador assíduo das crônicas sociais, pessoa muito, mas muito rica mesmo. Mas na lotérica, para surpresa do Chico, era a primeira vez que ele aparecia.

- "Seu Chico preciso de um favor seu (a intimidade já assustou o lotérico - sustos e surrealismo é o que não faltarão no diálogo travado entre os dois). Gostaria de apostar nesta mega sena acumulada, mas pretendo pagar somente daqui a 90 dias - é possível?"

O Chico ficou sem saber o que dizer e o Dr. Maurício, aproveitando a indecisão, continuou:

- "O valor não é muito alto, e faço questão de pagar os juros referentes ao tempo em que o senhor vai me conceder o crédito. Se for necessário, telefono ao meu Banco (diga-se de passagem, o "meu" Banco aí significa que o sujeito detinha 65% das ações de um Banco - ele era o sócio majoritário, o dono do Banco realmente) e eles lhe darão o crédito necessário! "

A estas alturas, o Chico não entendia mais nada. Olhava para os lados, como que pedindo socorro ao primeiro que se candidatasse a prestar o favor. Isto não podia estar acontecendo - logo com ele. Como negar o pedido a uma pessoa daquele gabarito, de família tradicional, possivelmente com crédito ilimitado na praça? E se ele pretendesse apostar uma fortuna, como tudo levava a crer, como explicar ao gerente da Caixa no acerto de contas?! Era uma situação realmente muito, mas muito invulgar. Sem saber o que responder, seguiu o Dr. Maurício com o seu (por enquanto) monólogo:

- "Estou sentindo seu Chico, e com razão, que o senhor está preocupado, pois nem me conhece direito. Vou lhe propor o seguinte: o senhor está vendo aquele automóvel parado em frente à sua lotérica, um Mercedes-Benz do ano, cinza metálico? Aquele com motorista e dois seguranças ao lado? Bem, o carro é meu, a importação foi perfeitamente legal, custou 650.000 dólares, está quitado, com todos os impostos em dia, e os documentos estão aqui comigo. Como eu saí de casa sem o talão de cheques, faço absoluta questão de deixá-lo em garantia até o dia em que eu quitar o joguinho que pretendo fazer."

Se até aquele momento, os alicerces tinham apenas estremecido, agora a casa caiu de vez. Pense bem senhor lotérico, o que você faria nesta situação? Não sabe! Muito menos o pobre do Chico. Vamos acompanhá-lo na sua primeira e única intervenção no diálogo:

- "Dr. Maurício, dependendo do valor que o senhor pretende apostar, eu posso sacar o limite do meu cheque especial, mas o Banco está cobrando 10% ao mês. Como o senhor falou em 90 dias, a juros capitalizados mensalmente, isto representa 33% mais ou menos. E se o senhor faz tanta questão de deixar o carro em garantia, eu o acomodo na garagem que possuo aqui ao lado da lotérica, destinada aos meus clientes."

- "Fechado negócio seu Chico. Não se preocupe com o valor da aposta, o senhor nem vai precisar sacar nada do Banco."

A partir daí as coisas se sucederam numa velocidade espantosa: o Dr. Maurício sacou dois volantezinhos da mega sena do bolso, fez a sua fezinha no valor de R$ 3,00, preencheu um vale que alcançou ao Chico, no valor de R$ 4,00 (capital + juros), entregou-lhe os documentos do carro, mandou o seu motorista estacionar o Mercedes na garagem, despediu-se com um cortês aperto de mãos, e saiu rua afora, já usando o celular, como é de se esperar de todo homem de negócios. Eis o diálogo ao celular:

- "Querida, pode preparar as malas para a nossa viagem à Europa; consegui estacionamento  para o nosso carro pelos próximos 90 dias, por somente R$ 4,00 - ah - mais ainda, com este valor ainda estou concorrendo ao sorteio da mega sena acumulada que corre hoje!"

Publicado no jornal O Fenal em junho/2003

 

 

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