Al-Karismi

Produção de textos com conteúdo matemático e fácil leitura. Nada muito complicado, que só possa ser entendido por professores de álgebra ou trigonometria. Coisas simples, triviais, que ajudem o cidadão comum a solucionar problemas e desafios diários.

9/12/08

Quando morre um blog

Davi Castiel Menda

“Quando morre um blog, há um sentimento de empobrecimento e de tristeza. Seja qual for a linha editorial do blog, sempre há por parte de quem o escreve um compromisso com os leitores. Com a morte de um blog vão pedaços de pessoas e fragmentos de história. Pelo blog é revelado ao público o cotidiano do local, do país e do mundo, e a opinião de seus diversos leitores, independentemente se o filtro da lente destes é virtuoso ou defeituoso, é o que vale, é o que fica.” – Paulo Tonet Camargo

Minha vida sempre foi repleta de coincidências. Elas são diárias e já não me surpreendo com qualquer evento por mais extraordinário que seja. O de hoje: na data em que completo 24.000 dias de existência, meus dois blogs (Al Karismi e Prognósticos Matemáticos) somam 50.000 acessos. Na condição de estatístico diletante, me imagino com um dia de idade “escrevendo” qualquer coisa e duas pessoas “acessando” o que rabisquei, diariamente, durante 65 anos, com tempo bom ou tempestade. Essa foi a média. Senhores - queiram ou não - foi um feito! 

Nos meus períodos de insônia, fervilhavam no cérebro inúmeras idéias para blogs futuros. Ficava indeciso na hora de escrever. Qual o mais indicado, qual o mais atrativo? E o mais importante, que houvesse dupla satisfação: a dos leitores e a minha. De repetente, sumiram as idéias; nem política, nem religião, nem futebol, nem humor, nem loterias e, pior ainda, nem matemática que sempre foi minha paixão - nada! Nem o “sifu” do presidente Lula, um presidente singular avesso aos plurais, personagem que tanto me agradava criticar, me comoveu. Passaram-se mais de três dias e nenhuma inspiração; estava na hora de parar.

Um blog não vive de vendas, vive de opiniões, de acessos e comentários. Talvez no Brasil de hoje não tenha mais lugar para um blog de opiniões fortes. Nesses novos tempos os leitores querem uma análise mais neutra dos fatos ou até quem sabe as pessoas em geral perderam a própria opinião em um mundo pasteurizado. Os ditados, via de regra, são divertidos, mas sempre encerram um fundo de verdade: “a cachorros e cavalos velhos não se ensinam truques novos”. E ensinar um truque novo a um dinossauro é mais difícil ainda.

O blog Al Karismi teve momentos gloriosos: as crônicas “Charges, Humor e Petróleo” e “As Urnas Eletrônicas e a Zerésima” foram publicadas com destaque no jornal Zero Hora de Porto Alegre e diversos sites do país, com dezenas de milhares de leitores. Estabeleci amizade e vínculos com pessoas que nem conheço pessoalmente e que a mim me parece que convivo desde sempre. O blog ultrapassou fronteiras, e graças ao Nelson Menda, conquistou inúmeros leitores brasileiros/americanos residentes nos Estados Unidos.

Enfim, blogs nascem e morrem todos os dias. O certo é que o Al Karismi deixa de ser editado definitivamente a partir de hoje, um espaço que sempre esteve voltado para a cidadania, a inteligência, a cultura, a democracia. Gostando ou não do morto, espero que vocês sintam saudades.

E, se me permitem - aos inteligentes - uma última ironia: pede-se não enviar flores.

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6/12/08

Olhar dominical - 15

                             

Bom domingo!

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Estatísticas e desenganos

Davi Castiel Menda

 

‘Quando a gente pensa que sabe todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas’.

Quem me conhece sabe que vivo e respiro estatística durante as 24 horas do dia. Em quase tudo que faço, avalio os riscos estatisticamente. Sei até que dentro de alguns dias estarei completando aniversário: 24.000 dias. Quem é que calcula isso?

 

Pois apesar da minha mania(?), paradoxo dos paradoxos, não acredito em estatísticas! Principalmente aquelas que envolvem pesquisas junto ao público. Lembro-me que em determinada oportunidade, um amigo me procurou, pois estava interessado em dois tipos de informação. Em Porto Alegre, qual o percentual de mulheres grávidas e quantas pessoas teriam sofrido algum acidente a ponto de estarem engessadas? Perguntei-lhe quanto queria gastar e ele me respondeu: o mínimo possível.

Simples, contrate dois estudantes, entregue-lhes uma prancheta e lhes peça que fiquem num determinado ponto movimentado da cidade. Em poucas horas, avaliadas umas 2.000 pessoas, terás uma boa referência.

Dito e feito. Ele seguiu meu conselho, contratou um rapaz e uma moça e 24 horas depois me telefonou espantado. Os resultados tinham sido estapafúrdios. Porto Alegre tinha mais de 40% de mulheres em estado interessante e mais de 50% estavam com o pé, perna, ou braços engessados.

O motivo – muito simples. O pesquisador das grávidas, coincidentemente tinha se estabelecido exatamente em frente ao Hospital Fêmina (especializado em parturientes) e o outro, próximo à uma clínica ortopédica na Rua Santo Antônio. Explicado?

Mas não é que abro a Zero Hora de hoje e me deparo com a manchete “Aprovação de Lula bate novo recorde”, atingindo 70%. Curiosamente, por e-mail, minutos depois, recebo um convite a entrar no site do Estadão – enquetes (estadao.com.br) e votar na seguinte pesquisa: Você votaria no candidato do presidente Lula em 2010?

Logo após ter exercido o meu direito de eleitor, o site já informa o resultado parcial. Às 8,37 hs, 160.000 internautas já tinham comparecido e o resultado era o seguinte: sim 39% - não 61%.

Parodiando Shakespeare, “há algo de podre no reino da Dinamarca”.

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5/12/08

Torre de Babel - Fé ou Razão? - I Parte

Davi Castiel Menda

“O pensamento religioso é mais sábio do que os ídolos dos últimos 200 anos, que criaram fórmulas de perfectibilidade para nossa risível Babel. Filosofia, ciência e religião devem fundamentar a formação dos mais jovens. A relação entre razão e infelicidade é empírica, a relação entre razão e felicidade é ideal. Contrariamente ao pensamento mágico que se crê científico, reconhecer a sabedoria da religião nada tem a ver com aquela contradição moderna entre razão e fé, pois tal oposição já é fruto de má filosofia.” – Luiz Felipe Pondé.

No seu trabalho Conflitos Éticos em Psiquiatria, Ivan de Araújo Mora Fé declara que um dos aspectos mais notáveis da aventura do homem ao longo da história tem sido seu constante anseio de buscar novas perspectivas, abrir horizontes desconhecidos, investigar possibilidades ainda inexploradas, enfim, ampliar o conhecimento. Desde seus primórdios, os seres humanos se dedicam a investigar e a pesquisar, sendo esta curiosidade, este desejo de conhecer, uma das mais significativas forças impulsoras da humanidade.

O que leva o homem a esta inquietação, a esta busca intelectual? Qual a origem e o significado deste esforço do homem para superar a si próprio e ao seu mundo? É assunto que tem ocupado exaustivamente os estudiosos. O fato é que esta ininterrupta e incansável luta pelo saber tem sido uma das mais importantes atividades do homem. Ocorre que, ao dar vazão ao seu insaciável afã de descobrir, criar, conquistar, ao tentar realizar em toda a sua plenitude a livre aventura do espírito, o homem se depara com seus limites.

A Bíblia relata que, com o objetivo de alcançar os céus, os homens decidiram construir uma alta torre, a qual ficou conhecida como a Torre de Babel, pois da experiência resultou a confusão, a desordem, o desentendimento, a discórdia, como castigo divino por uma ação tida como orgulhosa. Em outra perspectiva, esta questão é abordada por Goethe, em seu notável poema Fausto, onde o personagem central se angustia com a constatação da pequenez dos seus conhecimentos ante a imensidão do desconhecido e decide passar por cima de quaisquer regras ou considerações para empreender a tentativa de desvendar os mistérios da natureza, os enigmas do universo. A verdade é que, muitas vezes, tem sido o homem tentado a querer ultrapassar sua própria condição humana, e este anseio, esta fantasia, se expressa nas crenças, nos mitos, no folclore e nas produções artísticas e literárias, mesclado com a intuição dos riscos inerentes a esta "transgressão".

Ainda de acordo com a Bíblia, todas as línguas e raças do mundo tiveram sua origem em um momento determinado: a destruição da legendária Torre de Babel. Teria sido tal torre realmente construída como descrita na bíblia? Será que Deus a destruiu e dispersou os habitantes que a rodeavam pelos quatro cantos da terra?

A contradição entre razão e fé foi magistralmente explorada por Werner Keller, através da sua obra (década de 60) “E a Bíblia tinha razão…”, livro que alcançou recordes mundiais de vendagem, desenvolvido dentro de um caráter arqueológico e que tinha como finalidade explicar, dentre os mais variados relatos da Bíblia, os milagres ocorridos, tanto aqueles mencionados no Antigo Testamento, como no Novo Testamento. Destacamos: o Dilúvio, o Êxodo, José do Egito, a vida e morte de Jesus, João Batista, os Apóstolos et cetera. Através de um estudo profundo de pesquisas, o autor narra tais fatos provando que realmente eles ocorreram, mas não da forma como estão expostos nos textos bíblicos. Indícios que nortearam as pessoas que os escreveram (sob inspiração Divina, segundo praticamente todas as religiões) nos remetem exatamente aos locais previstos e descritos na Bíblia.

A fé, segundo Gênesis, nos relata que o Senhor desceu a fim de ver a cidade e a torre que os homens estavam a edificar. E o Senhor disse: «Eles constituem apenas um povo e falam uma única língua. Se principiaram desta maneira, coisa nenhuma os impedirá, de futuro, de realizarem todos os seus projetos. Vamos, pois, descer e confundir de tal modo a linguagem deles que não consigam compreender-se uns aos outros.» E o Senhor dispersou-os dali por toda a superfície da Terra.

A razão, sem pretender duvidar da fé a da Bíblia (que usa e abusa das metáforas, o que provoca a diversidade de religiões e interpretações) se pergunta: se os homens estivessem construindo uma torre para alcançar os céus, e Deus veio trazer a disseminação de novas línguas, este mesmo Deus estaria temendo que simples homens pudessem alcançar os céus? Mas em que patamar teria sido projetada a Torre de Babel para atingir este utópico objetivo? Independente da resposta, Babel pode ser simbolicamente considerada uma precursora do desejo do homem de construir edifícios cada vez mais altos, febre que vem se acentuando nos últimos tempos, principalmente no berço da Torre: a Ásia.

- continua -

criado por projetosnumericos    5:39 — Arquivado em: Ensaio

Torre de Babel - Fé ou Razão? - II Parte

Davi Castiel Menda

II Parte

O Livro dos Jubileus especula e menciona a altura da torre como sendo de 5.433 cúbitos e dois palmos (2.484 metros de altura). Isto seria aproximadamente quatro vezes mais alto do que as estruturas mais altas do mundo de hoje e em toda a história da humanidade. Tal afirmação seria considerada mítica para a maioria dos estudiosos, visto que os construtores naqueles tempos, seriam incapazes de construir uma estrutura correspondente a um prédio de 800 andares!

A outra fonte extra-canonical é encontrada no Terceiro Apocalipse de Baruch; menciona que a ‘torre da discórdia’ alcançava uma altura de 463 cúbitos (212 metros de altura). Apesar de mais razoável, esta altura ainda seria mais alta do que qualquer outra estrutura construída no mundo antigo (a maior delas a Pirâmide de Quéops com 146,59 metros em Gizé, Egito) e mais alta do que qualquer estrutura construída na história até à montagem da Torre Eiffel em 1889.

A literatura religiosa oferece variados relatos sobre as causas para a Torre de Babel ter sido construída, além dos objetivos dos seus construtores. Na Mishná (uma das principais obras da Literatura Rabínica) era vista como uma rebelião contra Deus. Uns midrash (no judaísmo, forma narrativa desenvolvida através da tradição oral) mais tardios registam que os construtores da Torre teriam dito: "Deus não tem o direito de escolher o mundo superior para Si próprio, e de deixar o mundo inferior para nós; por isso iremos construir uma torre, com um ídolo no topo segurando uma espada, para que pareça como se pretendesse guerrear com Deus".

À primeira vista essa afirmação pode ser chocante, agressiva aos nossos sentidos e princípios, desrespeitosa à religião. Mas não devemos esquecer que os povos que viviam naquela época e região do globo eram guerreiros por natureza e profissão; a espada era seu instrumento de trabalho, de defesa, a personificação da sobrevivência. Guerras, sangue e vingança faziam parte do cotidiano. Os nomes dos vários deuses (inclusive o de Deus), sob as mais variadas denominações, ou era aliado ou inimigo! E, partindo do princípio bíblico de que os homens foram moldados à sua imagem e semelhança, por isonomia - não teriam pensado eles? – imaginaram que poderiam usufruir do direito aos mesmos conhecimentos, às mesmas regalias, da mesma moradia. O paraíso, os céus?

Admitindo de que todos os fatos relatados na Bíblia sobre a Torre de Babel sejam autênticos, a interferência de Deus numa obra humana não estaria indo contra a teoria do livre arbítrio? Se Deus tinha o conhecimento eterno, onipotência e onisciência, sabia desde o início dos tempos que um dia o homem chegaria a tal ponto. Por quê não impediu antes? O direito ao livre arbítrio teria prevalecido até então? Porém, ao “sentir” a proximidade dos homens, Deus interferiu na construção através da multiplicidade de idiomas, constrangendo a apregoada e discutível liberdade de escolha pela consciência do homem. Teria sido um acerto esse desagregamento compulsório?

Apesar de tudo - e ainda dentro do mesmo raciocínio anterior de veracidade dos fatos - o homem, mesmo temente a Deus, não se convenceu plenamente do ocorrido e, a todo o momento, constrói suas Torres de Babel, sejam elas particulares ou em âmbito universal. O que são os prédios fantásticos, espetaculares, monstrengos e desproporcionais construídos nos ricos países asiáticos? O que é o esperanto (criação de Ludwik Zamenhof), senão uma língua que servisse para toda a população mundial? O que é o COI (Comitê Olímpico Internacional), o que é a FIFA, o que é a ONU? São tentativas de reerguimento da Torre!

A raça humana, por mais que tenha avançado nas mais variadas ciências, ainda funciona como um grupo de trogloditas pré-históricos, cujas necessidades se limitavam fundamentalmente a viver em comunidade. Os homens de hoje, empirica e subjetivamente, preferem viver enclausurados numa torre, intimamente juntos, num instinto muito contraditório de sobrevivência – é atávico, utópico, eterno.

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4/12/08

O Escândalo Proconsult

Davi Castiel Menda

Um dos episódios mais lamentáveis na história de uma eleição no Brasil nos remete a 1982. Na fase de apuração a governador do Rio de Janeiro, ocorreu a famigerada Operação Proconsult (nome da empresa encarregada de proceder à apuração) e que teve como objetivo “virar” os resultados de uma eleição já ganha por Leonel Brizola sobre o candidato do Governo federal na época, Moreira Franco. A sistemática consistia em sonegar os resultados da capital (dois terços do eleitorado), onde Brizola alcançara 70% dos votos, e só divulgar uma média da apuração no interior do estado, onde Moreira era majoritário. Não fosse a pronta intervenção de Brizola, exigindo falar à nação pela Rede Globo – que insistia em divulgar a vitória de Franco - a história teria sido diferente. Para aqueles que desconhecem o fato, publicamos excertos do livro “Brizola Tinha Razão”, do jornalista FC Leite Filho.


No dia 18 de novembro de 1982, inconformado com a demora na divulgação dos resultados da eleição, em que era tido por todos como candidato vitorioso ao governo do Rio de Janeiro, Leonel Brizola procurou a imprensa internacional para denunciar uma tentativa de fraudar a apuração e declarar eleito o candidato do PDS Moreira Franco.

Mais tarde, o candidato do PDT foi à sede da Rede Globo de Televisão, no Jardim Botânico, no Rio, e exigiu espaço para falar. Ele via na emissora o braço direito da conspiração, pelo modo faccioso com que se comportou, ao desconhecer os resultados favoráveis a Brizola, que eram corretamente projetados pelo Jornal do Brasil e a Rádio Jornal do Brasil.

Como se verificou depois, segundo denúncias que também partiram de funcionários da própria Rede Globo, as Organizações Globo, juntamente com o SNI, estavam envolvidas naquilo que mais tarde se tornou conhecida como a Operação Proconsult.

Esta operação, que levava o nome da empresa encarregada de proceder à apuração do Rio de Janeiro, a Proconsult-Racimec - de propriedade de antigos oficiais de informação do Exército - tinha como objetivo virar "na marra" os resultados em favor do candidato do Governo federal na época, Moreira Franco.

A estratégia consistia em sonegar os resultados da capital, a cidade do Rio, que reúne mais de dois terços do eleitorado do Estado, e onde Brizola obteve cerca de 70% dos votos, e só divulgar uma média das apurações do interior, onde Moreira era majoritário, com as da periferia e parte da capital, de modo que situasse sempre Moreira Franco à frente dos votos. Isto era para infundir no público a convicção de que Moreira Franco e não Leonel Brizola ganharia a eleição.

Da contenção dos resultados da capital, a Proconsult passaria para a inversão pura e simples dos mapas eleitorais, em favor de Moreira Franco, na proporção que o público fosse "trabalhado sub-repticiamente" pela Rede Globo a acreditar que o candidato do PDS, que já fazia declarações nas emissoras de rádio e televisão na qualidade de virtual governador, tinha sido mesmo o vitorioso.

As denúncias de Brizola, que logo chegaram à opinião pública nacional, acabaram provocando grande impacto popular, com reações nas ruas do Rio contra os veículos das Organizações Globo, que não incluíam somente a televisão, mas o jornal O Globo e a Rádio Globo.

Pressionada por aquilo que ameaçava se transformar numa rebelião popular de proporção nacional contra a Globo, a emissora não teve outra saída senão conceder espaço a Brizola para fazer a denúncia e abortar a conspiração contra as urnas, em plena cidade do Rio de Janeiro. E isto foi feito no horário das 22 horas daquele dia 18 de novembro de 1982.

Ali mesmo Leonel Brizola assegurou a verdade eleitoral. Logo depois de sua entrevista, à tarde, aos correspondentes estrangeiros, a Globo passou a admitir que Brizola encaminhava-se para chegar à frente dos votos e não mais Moreira Franco, como a emissora vinha insinuando, desde o início da apuração, e que tentou esconder, juntamente com o SNI.

Até à noite de 18 de novembro, os resultados chocavam-se violentamente com os da Rádio Jornal do Brasil, que projetara a vitória de Brizola sobre Moreira Franco, com mais de 100 mil votos de vantagem, logo após o término da votação em 15 de novembro.

A fala de Brizola na Rede Globo teve um efeito tão fulminante que a emissora se viu obrigada a suspender, no dia seguinte, 19 de novembro de 1982, toda a programação eleitoral, que incluía inserções de hora em hora sobre a marcha da apuração, a partir de um grande aparato em que havia até computadores dentro do estúdio para manuseio dos apresentadores, uma novidade incrível para a época. Os resultados eleitorais passaram então a ser divulgados, agora com correção, dentro dos telejornais.

criado por projetosnumericos    5:22 — Arquivado em: Política

1/12/08

Acertei na Mega Sena

Davi Castiel Menda

Você já sentiu as emoções de acertar na Mega Sena? Nem que fosse pelo menos cinco das seis dezenas sorteadas? Saber que o sonho deixou de ser uma quimera e se transformou em realidade, e aqueles milhões de reais prometidos (ou milhares, no caso da quina) finalmente virão para o seu bolso?

Vamos iniciar bem a semana narrando um caso insólito e divertido, ocorrido em dois concursos simultâneos da Mega Sena, mais precisamente, os de números 308 e 309.

Pela estatística dessas extrações, pode-se afirmar com a mais absoluta certeza de que, em todos os concursos, milhares de brasileiros apostadores da Mega Sena jogam sem convicção, sem o pressentimento de uma mínima pontinha de palpite que seja. E eu explico: toda essa multidão entra numa agência lotérica e, pela mais absoluta falta de intuição, copia no volante em que pretende apostar exatamente as mesmas seis dezenas que foram sorteadas no concurso anterior.

Analisando o caso com mais profundidade, há três possibilidades de preenchimento dos volantes: a primeira, o apostador é soberano para marcar as dezenas que bem lhe aprove, principalmente as indefectíveis datas de aniversário dos pais, filhos, cônjuge, et cetera (a interpretação do et cetera fica a cargo e consciência de cada um). A segunda opção e escolha de boa parte dos jogadores, é entregar a responsabilidade do preenchimento à própria máquina, que a executa através de uma rotina de aleatoriedade, o que inconscientemente por parte do apostador é uma tentativa de auto-isenção do desacerto. A falta de sorte no caso da não ocorrência de prêmio, o que é o mais provável e que em estatística chamamos de erro constante ou sistemático, pela sua habitualidade, lá no âmago desses apostadores é de exclusiva responsabilidade do computador, afinal, não foi “ele” que escolheu as dezenas?! E, finalmente, a terceira e última, a opção objeto da nossa análise e tema do blog: a cópia fiel das dezenas sorteadas na extração anterior, o que é um ato de fé e de coragem pela esperança da ocorrência de um milagre, ou, apelando para a meteorologia, que um raio caia duas vezes no mesmo lugar - e na mesma semana!

Pois vamos relembrar as dezenas sorteadas no concurso 308 da Mega Sena: 04 – 11 – 25 – 29 – 39 e 55. Nos dias que antecederam a extração do concurso 309, exatos 3.001 apostadores em todo o país dirigiram-se às agências lotéricas e copiaram nos seus volantes essas seis dezenas, as mesmas do resultado anterior (308), e apostaram.

Vejam o que o destino reservou a eles.

No concurso 309 foram sorteadas as dezenas 04 – 11 – 25 – 39 – 50 e 55, ou seja, repetiram cinco das seis dezenas do concurso anterior. É previsível que nenhum dos apostadores tivesse conhecimento da aposta um do outro e, sabendo-se que o rateio da Quina da Mega Sena normalmente paga um prêmio compensador, em média 20 mil reais, todos, ao saber do resultado, devem ter festejado bastante, e até gasto por conta.

Qual não deve ter sido a surpresa desses felizardos, quando foi divulgado o rateio oficial, indicando 3.001 ganhadores na quina. E o mais fantástico no caso é que, sabendo-se que a dificuldade de acertar a quina é de 66 vezes a mais do que a quadra, nesse concurso 309 a quina encontrou quatro acertadores a mais do que a quadra, que premiou 2.997 apostadores. Portanto, pela primeira, e provavelmente última vez na história, a quina da Mega Sena pagou menos (R$ 122,53) do que a quadra (R$ 122,69).

Abro um parêntese só para sonhar (num gesto da mais absoluta travessura infantil) com a seguinte situação: já imaginaram se repetem todas as seis dezenas ao invés de cinco - as conseqüências? O jogo mais difícil do mundo, em que as chances de acerto são de uma em 50 milhões, e 3.001 apostadores acertaram em cheio? Vinha repórter do Cazaquistão para cobrir a matéria. Fecha parêntese.

Mas falando em repetição, dou uma informação com a mais absoluta exclusividade aos leitores do blog Al Karismi, notícia jamais divulgada pela imprensa ou pela própria Caixa: na Loteria Federal, nada mais, nada menos do que 123 bilhetes já foram sorteados em duas oportunidades no primeiro prêmio. E mais, três bilhetes felizardos, ou melhor, de felizardos proprietários, já foram sorteados em três oportunidades com a sorte grande.

E para complementar, já que o assunto é repetição, apesar de 99,999% dos apostadores ignorarem e a maioria deles julgar impossível, já aconteceu um caso de repetição de todas as dezenas, numa das loterias da Caixa. Este evento muito singular aconteceu na Quina, na Quina mesmo: nos concursos 732 e 1157, foram sorteadas as mesmíssimas cinco dezenas: 07 – 10 – 28 – 62 e 78.

Quem sabe essas dezenas repetem uma terceira vez na extração de amanhã da Quina e você aproveita os palpites? E, levando em conta que o blog de hoje está sendo lido pelo menos por uns 250 leitores, terei assunto para um outro dia. Opa, esqueça, lembrei-me: já aconteceu! Uma “vidente” que atuava no júri do programa do Bolinha (só quem tem acima de cem anos deve lembrar-se), em certo sábado divulgou seus palpites para a Loto (denominação da Quina antes de 1994) e cento e tantos espectadores acreditaram, e jogaram. A citada senhora – milagrosamente – acertou em cheio, consequentemente…

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Posfácio:
Sei que você foi atraído pelo título, mas não se considere enganado. Eu fui “o um" dos 3.001 felizardos que acertou a quina da Mega no concurso 309 e recebeu a “fortuna” de R$ 122,53!

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29/11/08

Olhar dominical - 14

                  

Bom domingo!

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Amenidades

Davi Castiel Menda

Gosto de comer bem, apesar de vegetariano. Sempre estou procurando novidades, mesmo que essas estejam escondidas em botecos de terceira ou de categoria indefinida. Por esses dias, com pressa, entrei num restaurante semipopular, administrado por uma grande organização. Pelo menos, o preço era fixo; nada daquela nefanda, abominável e execrável balança. Eram mínimas as opções do buffet e senti que o almoço não seria dos melhores. Servi-me das poucas variedades de salada, uma concha de arroz e, salvação, lá adiante batatas fritas. Aproximei-me lépido e faceiro e no momento em que iria completar meu prato, uma atendente, intimidativa, num grito ameaçador avisou-me: “aqui é a seção de grelhados; se pegar alguma coisa é mais R$ 2,30.”

Expliquei a ela, numa boa, que meu intuito era somente servir-me de batatas fritas, não me interessava as carnes, de aspecto indefinido, mas que ela orgulhosamente chamava de grelhados. Para minha incredulidade e desespero (não pelos R$ 2,30 – mas pela classificação absurda, confundido um tubérculo com um tecido muscular, mais conhecido por carne), continuou classificando batata frita como grelhado.


Em matéria de gastronomia, morro e não vejo tudo.

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No meu tempo de guri, os heróis eram, como classificar, assexuados?
Eram eternamente namorados, noivos, e respeitavam certos limires vitorianos. Não cresciam, não ficavam velhos, não casavam, não “ficavam”. Quem é do meu tempo – bota tempo nisso – deve lembrar-se do Fantasma e sua noiva Diana Palmer. Linda de morrer, mas o Fantasma, com aquela ridícula fantasia, preferia ficar perdido na selva com seus amigos pigmeus. Lembro do Mandrake e sua noiva (Narda?), rica, elegante, frequentadora das altas rodas da sociedade. E o Mandrake, na sua mansão Xanadu, às voltas com um negrão de dois metros de altura, o Lothar. Sem contar a amizade colorida entre Batman e Robin, o sorrelfa Super-Homem que ia e vinha e nada de faturar a Louis Lane, aquela repórter sonsa e sem graça, tanto nos quadrinhos como na tela. E os heróis de Disney, todos eles tios, ninguém queria saber de oficializar um comprometimento maior. Era o Tio Patinhas, Donald e seus sobrinhos, e as pobres Margarida e Minnie a ver navios, vendo seus amados brincar com o Pateta e Pluto.

E ontem fiquei surpreendido com a notícia do iminente beijo da Mônica e Cebolinha, heróis brasileiros do Maurício de Souza. Não é que os personagens da Turma da Mônica mudaram? A comilona Magali agora faz dieta; Cascão, para desespero dos ambientalistas que orientam a população a economizar água, agora resolveu tomar banho; e os eternos inimigos Mônica e Cebolinha, numa atitude que ainda vai provocar polêmica entre os moralistas de plantão, devem dar um beijo frontal, que esses (os moralistas) esperam que pelo menos não seja explícito demais que envolva o órgão muscular alongado, móvel, situado na cavidade bucal, que serve para a degustação e deglutição, que desempenha papel importante na articulação de sons e que, em algumas oportunidades, através de leve ou violenta sucção, pode concretizar um ósculo lascivo. Resumindo, o Maurício terá coragem de promover um beijo de língua entre os heróis dito infantis?

Em matéria de Histórias em Quadrinhos, morro e não vejo tudo.

criado por projetosnumericos    7:23 — Arquivado em: Humor

28/11/08

As urnas eletrônicas e a zerézima

Davi Castiel Menda

"Se você acredita que a tecnologia pode resolver seus problemas de segurança, então você não conhece os problemas e nem a tecnologia." - Bruce Schneier

O Titanic, em sua viagem inaugural, ao zarpar de seu porto de origem, ostentava o título de insubmergível, e era tanta a autoconfiança do engenho humano, que os jornais da época afirmaram que "Nem Deus poderia afundar esse navio". Bill Gates, o papa da informática, em 1981, nos brindou com a pérola "640 kb de memória é mais do que suficiente para qualquer um". Thomas Watson, presidente da IBM, em 1943: "Penso que há talvez no mundo um mercado para cinco computadores". Mas a campeã das afirmações estapafúrdias deva ser creditada a Charles Duell, Diretor do Departamento de Patentes dos Estados Unidos, em 1899: "Tudo que podia ser inventado, já o foi", propondo inclusive o fechamento dos escritórios que dirigia. Pelos exemplos, concluímos, já no início do artigo, de que afirmações exageradamente desmedidas tendem, com o passar do tempo, a mostrar-se equivocadas, quando não beirando ao ridículo.

Implantada no Brasil em 1996, a votação eletrônica, segundo o TSE, baniu de vez a possibilidade de fraude eleitoral, com a afirmação dogmática de que o sistema é seguro, indevassável. Entretanto, estas condições até hoje são questionadas por estudiosos, programadores, os próprios partidos, e porque não, por boa parcela da população brasileira.

Alguns defensores das urnas eletrônicas, na ânsia de afirmar que o sistema é infalível, declaram com ares de ufanismo simplório que o Brasil, ao comercializá-las para outros países, está exportando democracia(!), embaralhando comércio e tecnologia com patriotada. Paulo Gustavo Sampaio Andrade, editor do site Jus Navigandi, traduz de forma muito simples e direta a opinião de quem põe em dúvida a assertiva governamental: "Se o sistema eletrônico eleitoral é imune a fraudes, considerada uma suposta perfeição técnica e a natureza biológica das pessoas envolvidas" - compara ele - "o sistema financeiro já teria adotado o projeto e contratado as pessoas que criaram e utilizam o sistema eleitoral eletrônico para pôr fim aos inúmeros golpes existentes, por exemplo, nos caixas eletrônicos e nos bancos via internet".

A desconfiança baseia-se em dois pontos cruciais. O primeiro, é saber se realmente o voto digitado a um determinado candidato é efetivamente computado e creditado a ele. O segundo questionamento é a probabilidade de violação da identidade do eleitor, a exemplo do acontecido em recente episódio no Senado, quando determinado grupo teve acesso a quem votou em quem.

O Eng. Amílcar Bruzano Filho, um especialista na área, compara a urna eletrônica à "uma máquina de votar inauditável, uma verdadeira caixa preta da qual nenhum partido político, fiscal ou auditor externo ao TSE, jamais teve acesso para conferir sua integridade". E complementa Bruzano: "o que o TSE chama de auditoria é colocar alguém em frente à urna. Isso não é o processo de exame de um sistema, mas um artifício. Um show".

O povo em geral - onde eu me insiro - pouco acesso tem ao assunto, mas pesquisando, toma-se conhecimento de que existem dois Sistemas Operacionais vigentes: o VirtuOs (que pertence a uma empresa privada) e o Windows CE, com mais de seis mil programas e dois milhões de linhas de código, tornando muito difícil a sua análise, se é que estão disponíveis. Esta falta de transparência é que compromete o primeiro pilar de um legítimo processo eleitoral: a votação. Os outros dois são a apuração e a fiscalização. A fase de apuração nos remete às eleições de 1982 no Rio de Janeiro e a famigerada Operação Proconsult, nome da empresa encarregada de proceder à apuração e que teve como objetivo "virar" os resultados de uma eleição já ganha por Leonel Brizola sobre o candidato do Governo federal na época, Moreira Franco. A sistemática consistia em sonegar os resultados da capital (dois terços do eleitorado), onde Brizola alcançara 70% dos votos, e só divulgar uma média da apuração no interior do estado, onde Moreira era majoritário. Não fosse a pronta intervenção de Brizola, exigindo falar à nação pela Rede Globo - que insistia em divulgar a vitória de Franco - a história seria diferente. Quanto à fiscalização, é totalmente inócua - se é que existe - fautor que provoca a incredulidade no sistema.

Existem n maneiras possíveis de fraude na votação, o TSE tem a obrigação de conhecê-las e toda a comunidade digital espera que as coíba com sucesso, mas nada impede de enumerá-las: clonagem de urnas; engravidamento da urna, com mesários em conluio na ausência de fiscais; fraude na apuração, já que o boletim de urna impresso quando do encerramento da eleição nem sempre é entregue ao fiscal; possibilidade de fraude no programa implantado na urna; adulteração dos programas originais implantados nas urnas; e por último, o maldito vírus - e por trás dele os crackers - que tanto mal tem causado em todas as áreas de atuação onde o computador está presente.

Mas afinal, o que é zerézima, presente no título deste artigo? É o neologismo criado pelos técnicos do TSE para indicar que cada candidato, no início do processo eleitoral, tem na verdade zero votos. É a garantia de que todos partem realmente do zero. Lamentavelmente, não é garantia nenhuma, já que qualquer programador, mesmo principiante, sabe perfeitamente que é possível digitar algo, a impressora reproduzir este algo, mas armazenar "o que se quer" na memória do computador. É uma pena que toda a garantia que o TSE nos ofereça seja apenas a zerézima, ou seja, zerézima garantia. 

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O presente artigo foi publicado originalmente no jornal Zero Hora de Porto Alegre, em 24.09.2006, como Tema para debate, causando grande impacto entre os leitores; a maioria se posicionando a favor da tese do autor. No dia seguinte, a esperada resposta do TRE-RS, criticando o artigo e autor. Nos últimos dois anos, pipocaram novas denúncias sobre a tão apregoada infabilidade das urnas e fato que merece destaque: representantes de vários paises vieram ao Brasil conhecer nossas urnas, e NENHUM a adotou…

criado por projetosnumericos    5:58 — Arquivado em: Política
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